Vale de Qadisha e Floresta dos Cedros de Deus, Património UNESCO Libano

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Horsh Arz el-Rab, a floresta dos Cedros de Deus

Embora possamos encontrar cedros em vários locais ao redor do Mediterrâneo, como no Chipre, Turquia, nas montanhas do Atlas em Marrocos, ou mesmo em França, nenhuma dessas espécies ou qualquer outra árvore no mundo tem um currículo tão invejável como o Cedro do Líbano. Senão vejamos:

Horsh Arz el-Rab, Cedros de Deus, LibanoDesde a antiguidade que a sua madeira aromática e homogénea é usada para os mais variados fins. Os Fenícios, foram o primeiro povo a usá-la nas suas embarcações comerciais e militares, bem como na construção de templos e habitações. Os Egípcios utilizavam a sua resina na prática da mumificação. Papiros antigos comprovam a grande comercialização entre o Líbano e o Egipto desta madeira de distinção. Era ainda costume queimar-se este tipo de cedro em diversas cerimónias solenes. Moisés aconselhava os sacerdotes judaicos a utilizarem a sua casca durante a circuncisão e no tratamento da lepra. De acordo com o Talmude, os Judeus queimavam madeira de cedro-do-Líbano no Monte das Oliveiras para anunciar o início do ano novo.

Vários réis da região, bem como de países distantes, procuravam a sua madeira para as suas construções civis ou religiosas – sendo o caso mais famoso o da construção do Templo de Salomão em Jerusalém, bem como os Palácios de David e Salomão. A árvore é, aliás, mencionada 75 vezes na Bíblia. Foi ainda utilizada frequentemente pelos Romanos, Gregos, Assírios e Babilónios.

Acontece que tantas qualidades juntas acabaram por ser a sua desgraça e no século XIX poucos exemplares de espécie restavam, sendo que uma das maiores manchas se encontrava aqui nas encostas do monte Makmel, no inicio do vale de Qadisha.

Em 1876, apoiados pela rainha Victória do Reino Unido, uma comunidade religiosa construiu um muro de pedra em redor de 102ha de cedros, de modo a proteger as árvores novas das cabras que se alimentavam delas.
Parte deste muro ainda hoje existe, mas a reserva foi estendida e actualmente decorrem várias campanhas de reflorestação para voltar a cobrir as montanhas do Líbano com a árvore que o tornou famoso e que se encontra mesmo na bandeira nacional.

Como chegar

Para chegar aos cedros deve partir de Tripoli (Tarablous) e apanhar um táxi partilhado até Bcharré que lhe deve custar cerca de 8000LL. Em Bcharré terá de apanhar um táxi normal para subir até aos cedros. São poucos quilómetros mas o declive é muito acentuado para ir a pé.

Uma rota também muito interessante para ir aos cedros é vindo de Baalbek, ou seguindo depois para Baalbek partindo dos Cedros, fazendo assim um percurso circular no país. Acontece que não há transportes regulares que cruzem a montanha entre estes dois locais super interessantes.

As duas hipóteses que tem é ir de táxi, o que lhe custará 50$USD, ou então à boleia. Eu fiz à boleia e correu muito bem. É fácil viajar à boleia nas zonas mais rurais do Líbano. Veja esta página com mais informação: Viajar à boleia de Baalbek para Bcharre, no Norte do Líbano.

Durante o inverno toda esta zona se cobre de branco e funcionam as estâncias de ski dos cedros, sendo mais fácil arranjar transporte, já que a afluência também é maior. No entanto, a estrada que segue para Baalbek fica fechada.

Visitar os Cedros

Cedro seco esculpido em Horsh Arz el-Rab, LibanoO parque tem duas entradas: uma junto à estrada que vem de Bcharré e onde param a maioria dos turistas e outra que começa num caminho mais para o lado da montanha e mais favorável a quem vem do lado de Baalbek.

Por aí atravessa primeiro uma zona onde se encontram as plantações de cedros novos ao abrigo de vários programas de reflorestação.

Não há um valor fixo a pagar à entrada do parque, mas é obrigatório fazer um donativo no valor que quiser. Consoante o donativo recebe uma pequena lembrança.

Eu adorei este sistema, e acho que devia ser implementado em mais monumentos, ao contrário dos ridículos bilhetes modernos que saem das máquinas registadoras e que passado um mês já não se conseguem ler.

Não perca o cedro de Lamartine, um tronco de cedro seco esculpido por Rudy Rahme em 1992 depois da árvore ter sido atingida por um relâmpago.

Fotografias da floresta dos cedros de Deus

Wadi Qadisha – O Vale Sagrado

Vale de Qadisha, Líbano
Iniciando-se poucos metros abaixo dos cedros junto a Bcharré, o impressionante vale de Qadisha é desde os primeiros anos depois de Cristo local de abrigo a comunidades cristãs.

Asensação de completo isolamento do resto do mundo que se sente em Qadisha é algo que nunca encontrei semelhante em qualquer outro lugar. Mesmo vendo algumas casas  modernas no topo dos penhascos, o tempo parece ter parado para quem vive no vale.

Para além dos mosteiros  maronitas que estão activos, há mais pessoas que vivem aqui da agricultura e da pastorícia, em locais que só são acessíveis percorrendo vários quilómetros a pé.

Caminhar no vale de Qadisha

Mesmo hoje o vale de Qadisha mantem-se quase impenetrável. Grande parte da sua extensão só é acessível a pé e para os mais aventureiros.  Há vários locais onde pode descer até ao vale e pelo menos dois que pode ir de carro.

Vale de Qadisha, LíbanoMapas do Vale Sagrado, Ouadi Qadisha
Um dos acessos é a partir de Bcharré: aqui, por de trás da igreja principal há umas escadas que dão acesso às últimas casas antes do penhasco.

Na altura em que visitei andava a ser construída uma estrada pelo que o trilho tinha em parte desaparecido. Perguntei a  várias pessoas nas casas ao pé até o conseguir descobrir. Tive de caminhar alguns metros por dentro de um ribeiro até conseguir dar com o trilho que vai até ao mosteiro de Mar Lisha, também acessível de carro mas por outro lado.

Uma vez no vale, há um caminho de terra batida ao longo do qual existem incrivelmente alguns restaurantes e que vai até um pouco antes do mosteiro de Quenoubia. A partir daqui só dá mesmo para seguir por um trilho pedonal sendo possível ir até ao mosteiro de Santo António de Qozhaya e daqui subir pela estrada até Ehden.

De Bcharré até Mar António é possível fazer num dia se começar cedo. Eu desci em Bcharré pelas 4 da tarde e consegui ir dormir ao mosteiro de Quenoubia onde fui muito bem recebido pelas freiras que me ofereceram chá e autorizaram a esticar o meu saco-cama numa capela assim como a participar nas suas orações. No outro dia fiz o resto do percurso tendo chegado ao mosteiro de Mar António pelas 14h.

Esta segunda parte é um pouco dura pois tem de se subir e descer muito e é também bastante difícil encontrar o caminho correcto já que as sinalizações são completamente inexistentes e por vezes não se vislumbra mesmo nenhum caminho.

Felizmente há um projecto para marcar um trilho pedonal no vale. Inshalla!

Mosteiros de Qadisha

Outrora foram centenas os monges que faziam do vale sagrado a sua casa, quer ermitando em grutas, quer em comunidades monásticas.  Hoje mantêm-se activas duas comunidades e há também pelo menos um ermita a viver nas grutas.

Mosteiro de Mar Elisha, Quadisha, LibanoDeir Mar Elisha

O mosteiro de St Elisha (“deir” significa “mosteiro” em árabe e “mar” significa “santo”) é o primeiro do vale logo abaixo de Bcharré.

Construído em 1695, foi restaurado e 1991 e convertido em museu. É acessível por estrada a partir de Bcharré, assim como pelo trilho pedonal.

Deir Qannoubin

Mosteiro Quenoubios, Quadisha, LíbanoQannoubin vem do grego e significa “comunidade”. Este é um dos mosteiros que se matém activo com uma comunidade de freiras. Desde os primeiros tempos dos Maronitas do Líbano que este mosteiro é considerado o centro espiritual desta ordem religiosa.

No interior da capela principal podemos ver alguns frescos, os locais onde os primeiros monges viviam, e mesmo a múmia de um patriarca da igreja Maronita.

As irmãs Antoninas que o habitam recebem caridosamente os peregrinos, fazendo uma boa visita guiada pelos vários locais de interesse. Mulheres verdadeiramente interessadas em passar uns dias de retiro neste local também o podem fazer.

 

Mosteiro de St António de Qozhaya, Qadisha, LibanoDeir Mar Antonios Qozhaya

Fundado no século XI, foi neste que é o maior dos mosteiros de Qadisha que no século XVI foi montada a primeira imprensa do Libano, usando o sistema inventado por Gutenberg, mas aqui com caracteres árabes.

Esta máquina ainda se pode hoje ver no museu do mosteiros, assim como outros artefactos.

À entrada do mosteiro fica a “gruta dos loucos”, um local sombrio onde ainda se podem ver as correntes onde eram amarrados os dementes durante os exorcismos.

Fotografias do Vale Sagrado (Wadi Qadisha)

Mapa dos Cedros e Vale de Qadisha

Se procura um mapa para caminhar no vale de Qadisha veja aqui: Mapas do Vale Sagrado, Ouadi Qadisha

Ver Ouadi Qadisha num mapa maior

Olá! Eu sou o Samuel, autor do artigo que acabou de ler. Como você, também gosto de viajar e descobrir povos e lugares. Partilho neste blog as experiências vividas nos vários países por onde já andei. Pode saber mais sobre mim na página Sobre o autor. Espero que tenha gostado e, se tiver alguma coisa a acrescentar, deixe um comentário abaixo.

5 COMENTÁRIOS

  1. EUNAO IMAGINAVA COMO O LIBANO E LINDO….WONDERFULLL
    PARABENS PELAS FOTOS DAVID SAMUEL.
    PODES ENVIAR ME MAIS
    CAN YOU SEND ME MORE PICS ABOUT LIBANO?? OBRIGADA, THANKS

  2. Olá Ana

    Pois, nao podes… ainda. 🙂 Neste momento ainda so pus as fotos. Tenho tb 30 páginas como esta, q estão só com as fotos, mas que em breve se vão encher de informação, como já fiz com estas duas: https://www.dobrarfronteiras.com/ilha-akdamar-lago-van-turquia/ e https://www.dobrarfronteiras.com/castelo-dracula-bran-transilvania-romenia/ Esta aqui até pode ser a próxima 😉
    Depois, qnd concluir isso (daqui por um mes) começo a escrever os diários tudo seguidinho 🙂

    bjs
    Samuel

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