Sexto: Burros ao poder

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(…)Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse…

Antes isso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena …

Alberto Caeiro, in XVIII – Quem me Dera que eu Fosse o Pó da Estrada


Mauritânia

São 6 horas da manhã de Quinta-Feira dia 21 de Dezembro de 2006. Toca o despertador numa das tendas do terraço do Auberge Sahara. Apesar da hora tardia a que nos deitamos, não custa levantar; a ansiedade de dobrar mais uma fronteira sobrepõe-se ao cansaço. Bebe-se um resto do chá frio que sobrou da ceia de ontem, faz-se o pagamento e fazemos-nos à estrada.
Antes de seguir viagem é preciso abastecer o depósito. Dirigimos-nos às bombas mais próximas, que teoricamente funcionam 24/24. Chegamos, esperamos e nada. Alguém nos alerta que é preciso ir acordar o homem que está a dormir lá numa casa. Lá vamos nos, bater á porta. Passado um bocado o homem vem, com o tapete na mão, muito calmamente e põem-se a fazer as suas orações. Mesmo depois de terminadas as orações, parece pouco interessado em vender-nos uns litros de essência, por isso decidimos ir bater a outra porta.

Partimos para umas bombas mais à frente e aqui, não é preciso acordar ninguém. Os gasolineiros dormem ali ao lado das bombas embrulhados nuns cobertores. Atendem-nos prontamente, tentam enganar-nos nos trocos, mas tudo se resolve.

O francês do outro carro que nos acompanha pede indicações para sair da cidade em direcção a Rosso. Segundo o meu GPS seria cortar à esquerda na rotunda, mas o jovem diz que é á direita. Tudo bem, vamos então à direita! E até íamos bem, mas não demos com o cruzamento e enganámos-nos. Pelo caminho, com o nascer do sol ao fundo, um veículo semelhante a um automóvel, transportava perto de uma tonelada de peixe, uns no tejadilho, outros nos lugares dos passageiros, e outros ainda no porta-bagagens, com os rabos e as cabeças penderem para fora.

Mauritânia

Rendemo-nos então às maravilhas da electrónica e decidimos seguir o GPS. Mas mesmo assim enganámos-nos de novo! Viramos no cruzamento errado e eis que estamos no caos do transito de Nouakchott! A cidade está a acordar, e o código da estrada é coisa de que esta gente nunca ouviu falar. Numas ruas conduz-se pela esquerda, noutras pela direita e em algumas pelo centro.

Apenas é preciso respeitar uma regra: os burros têm prioridade! E são ás centenas. Veículos de tracção animal, com lustrosos motores, alguns de grande cilindrada (3 burros) aceleram pelas ruas da capital. Para eles não há STOP’s nem prioridades! Os carros é que têm travões, as carroças não!

Mauritânia

Entretanto o Sol já vai alto e encontramos finalmente a estrada que nos levará a Rosso. Pelo caminho burros e camelos “abastecem” nas ervas que crescem nas infindáveis planícies que eu pensava serem apenas de areia…

A viagem continua já a seguir, no Sétimo.

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