Igrejas talhadas na rocha em Tigray, Etiópia

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Nunca tinha partido como para esta viagem à Etiópia, com tão pouco planeamento. Tinha alguns locais onde queria mesmo ir como Lalibela, Axum ou Gondar e, uns quantos outros onde iria conforme o tempo o permitisse e as oportunidades fossem surgindo.

Tomei conhecimento das igrejas talhadas na rocha, existentes na província de Tigray no norte da Etiópia, num artigo da BBC que encontrei na Internet, o qual despertou de imediato o meu interesse.

Assim que cheguei a Axum, conheci logo um agente de tours no hotel em que fiquei. Ele propôs-me uma viagem de 2 dias pelo Tigray por 300 USD. Mesmo sendo um valor algo elevado, já que viajava sozinho e em época baixa é difícil encontrar outros viajantes para dividir custos, decidi logo aceitar.

adawa
Montanhas de Adawa na província do Tigray, Etiópia

A paisagem desta região da Etiópia é de cortar a respiração. Com a estrada a serpentear por entre colossais montanhas de rocha nua, é fácil perceber o insucesso do exército italiano quando em 1896 defrontou as tropas de Menelik II neste agreste território.

A minha viagem pelo Tigray começou então no Sábado de manhã com uma viagem de 95km até ao mosteiro de Debre Damo, sobre o qual tenho uma página com informação mais detalhada, já que este tem várias particularidades se comparada com as restantes igrejas do Tigray.

Depois de almoçar injira em Adigrat, tomar um café e experimentar a mascar chat, seguimos viagem por mais meia centena de quilómetros até Takatisfi, onde iria visitar as primeiras igrejas.

Igrejas de Takatisfi

À chegada à aldeia mais próxima foi necessário contratar um guia. Os guias são necessários aqui por uma razão: as igrejas estão por norma fechadas e os padres (que têm as chaves) estão durante o dia com as suas famílias ou a trabalhar no campo. Assim, é necessário ter alguém que saiba onde encontrá-los e os vá chamar.

Igreja de Pedro e Paulo, Tigray, Etiópia
Igreja de Pedro e Paulo, Tigray, Etiópia

No local onde estes normalmente estão, não encontrei nenhum guia, apenas alguns miúdos entre os quais um muito desenrascado e que falava bom inglês. A empatia foi imediata. Chamava-se David e acordei com ele 200Birr para me guiar a duas das igrejas. Em Takatisfi há três, mas decidi que iríamos visitar apenas duas. O normal seria 300Birr, para ir às três igrejas.

A primeira que visitei foi a de Pedro e Paulo que se encontrava logo ali no penhasco à nossa frente. Depois da árdua subida a Debre Damo da parte da manhã, subir pelos precários degraus de pedra e madeira até este igreja foi uma brincadeira de crianças.

igreja de Pedro e Paulo, Tigray
Degraus de pedra madeira na subida à igreja de Pedro e Paulo

A busca pelo padre demorou uns 15 minutos e depois lá subimos. Não se entra na igreja sem antes pagar o bilhete. Repete-se o ritual de nos sentarmos no chão ou numa pedra que esteja à mão, enquanto o padre calmamente preenche o bilhete e recebe os 150Birr.

igreja de Pedro e Paulo, Tigray
Entrada na igreja de Pedro e Paulo

A igreja de Pedro e Paulo é muito pequena e apenas parcialmente escavada na rocha. O mais impressionante é mesmo a sua localização, numa pequena cavidade a meio de um penhasco, mas os frescos nas suas paredes são de igual interesse.

Temas recorrentes como os apóstolos, os evangelistas, São Miguel Arcanjo ou a Virgem com o Menino revestem as paredes, com cores mais pálidas que as que se podem observar noutras igrejas.

Lá fora, numa pequena cavidade na rocha, tenho o primeiro contacto com ossadas humanas de antigos monges, semelhantes às que viria a encontrar em grande quantidade no dia seguinte no mosteiro de Abuna Yematah Guh.

igreja de Pedro e Paulo, Tigray, Etiópia
Pormenor dos frescos da igreja de Pedro e Paulo, Tigray, Etiópia

Estou fascinado com o David, o meu guia. Não deve ter mais do que uns 14 anos. Fala um inglês quase perfeito, é desenrascado e, sobretudo muito interessado em saber mais sobre o meu país e dar a conhecer o dele: não só as igrejas, que são a razão de eu estar ali, mas também da vida quotidiana.

David, o meu guia em Takatisfi
David, o meu guia em Takatisfi

Nos dois quilómetros que separam esta igreja da de Medhane Alem Adi Kasho falamos dos poços e da dificuldade de obter água, dos cactos que os agricultores usam como vedação dos terrenos, da escola, dos seus sonhos e dos miúdos que nos perseguem pedindo dinheiro. Aproveito para lhe explicar como isso é mau para ele e para a imagem do país.

Chegamos à igreja de Medhane Alem Adi Kasho acompanhados pelo padre. Junto desta saltam alguns babuínos e repousam algumas pessoas à sombras das árvores.

igreja de Medhane Alem Adi Kasho
Fachada exterior da igreja de Medhane Alem Adi Kasho

A igreja tem duas fachadas, caiadas de branco com portas em azul e vermelho. O padre, sempre sorridente pega num pau que trás na mão e chama a minha atenção para a forma de abrir a porta. Como que num passo de magia, introduz o pau na fechadura, puxa uns cordéis e a porta abre-se!

Entrada na igreja de Medhane Alem Adi Kasho, Tigray, Etiópia
Entrada na igreja de Medhane Alem Adi Kasho, Tigray, Etiópia

No interior há algumas lâmpadas eléctricas, que certamente só se acendem quando há razão para ligar o gerador. A minha visita será iluminada pela luz de uma vela de cera artesanal, o que lhe acrescenta algum misticismo.

 

Galeria de fotografias das igrejas de Takatisfi, Tigray

Depois de Takatisfi seguimos viagem até Wukro onde passei a noite no hotel Lwan. Típica cidade africana, muito escura à noite, muita gente na rua, muito pó mas com uma boa esplanada no hotel para beber uma cerveja e aproveitar o Wi-Fi.

Igreja de Abraha We Atsbeha

O segundo dia começou com uma viagem por estradas de pó em direcção ao maciço de Gheralta. Antes de lá chegar, uma paragem na primeira das duas igrejas a visitar neste Domingo: a igreja de Abraha We Atseha.

Cá fora estava uma grande grupo de homens, cobertos com os seus lenços brancos a ouvir um deles, que devia ser o padre. Uma espécie de sermão da montanha.

Homens em oração junto à igreja de Abraha We Atsbeha
Homens em oração junto à igreja de Abraha We Atsbeha

Dirigi-me à entrada da igreja onde, na maior das calmas e com pouca vontade de fazer alguma coisa, veio ter comigo o padre responsável por abrir a porta. Ao contrário do que aconteceu nas restantes, aqui não houve grande empatia com o padre. Estava ali como que a fazer um grande favor e não se esforçou muito por me mostrar a igreja ou explicar o que quer que fosse.

Igreja de Abuna Yemata Guh

Abuna Yemata Guh foi a cereja no topo do bolo nesta visita ao Tigray. Neste caso, o bolo foi uma montanha rochosa de declive acentuado e o melhor ingrediente deste bolo, alguns troços de paredes verticais que são necessários vencer para chegar à igreja.

O meu condutor parou na povoação mais próxima para me arranjar um guia que me levasse lá cima. Para dizer a verdade, tal como em quase toda esta viagem, tive a sensação de estar a ser enganado, já que o preço pedido pelo guia foi de 600Birr, qualquer coisa como 25€. Se para um europeu já é muito, para um etíope é ainda mais e, era notório que este meu guia estava bem mais nutrido que os seus vizinhos. Parece que ser guia turístico dá bom dinheiro por aqui.

Antes de iniciar a visita propriamente dita, parámos à sombra de uma enorme oliveira onde, ao que parece, costuma estar alguém a passar os bilhetes para entrar na igreja. Como não estava, dei o dinheiro da entrada (150Birr) ao meu guia para ele depois a pagar.

Pelo que percebi, o bilhete tem mesmo de ser pago aqui, pois se não o fizer e não tiver guia a interceder por si, corre o risco de chegar lá cima e não abrirem a porta.

Caminho para a igreja de Abuna Yehmata Guh
Caminho para a igreja de Abuna Yemata Guh

A parede mais vertical acaba por ser, para alguns, o ponto final na caminhada. Mas só para lá chegar é preciso vencer mais de metade do desnível, subindo por toscos degraus de pedra.

Quando cheguei à sua base, aproveitei para descansar e beber água à sombra de uma pequena árvore, enquanto me descalçava e esperava que um grupo de turistas irlandeses terminassem a sua subida. Deu para notar a dificuldade que sentiram, especialmente os mais velhos, que só conseguiram graças à ajuda de cordas e de alguns homens que estão ali a vender o seu apoio e segurança.

Embora o meu guia me tenha recomendado contratar os serviços deles, para subir com mais segurança, recusei. Confiei que os meus poucos conhecimentos de escalada seriam suficientes para subir e descer. E sobrevivi para contar a história.

Escalada para a igreja de Abuna Yemata Guh
Escalada para a igreja de Abuna Yemata Guh

Daqui para cima entra-se em solo sagrado e todos têm de caminhar descalços. Nestes últimos metros acabamos completamente envolvidos pela grandeza da paisagem, rodeados de profundos penhascos e altos picos rochosos onde só os pássaros chegam.

Nas pequenas cavidades da rocha, encontraram a sua última morada muitos dos padres que por aqui habitaram ao longo dos séculos. Restam os seus ossos por vezes ainda cobertos com alguma pele ressequida pelo ar seco predominante.

Ossadas junto à igreja de Abuna Yemata Guh, Etiópia
Ossadas junto à igreja de Abuna Yemata Guh, Etiópia

O desafio final para entrar na igreja inclui subir mais alguns blocos de pedra e caminhar por um estreito trilho escavado na rocha, sempre com um precipício de 200 metros ao lado.

Por fim chega-se à pequena porta da igreja. O padre recebeu o dinheiro da minha entrada e abriu a porta.

Interior da igreja de Abuna Yemata Guh, Tigray, Etiópia
Interior da igreja de Abuna Yemata Guh, Tigray, Etiópia

Se é verdade que isto já valia só pelo caminho, a beleza da igreja vale igualmente por si. É uma das mais fabulosamente decoradas de todas as que visitei. O tecto apresenta várias abóbadas, tudo talhado na rocha, ricamente decorado com frescos de cores fortes.

Pormenor dos frescos na igreja de Abuna Yemata Guh, Etiópia
Pormenor dos frescos na igreja de Abuna Yemata Guh, Etiópia

O caminho lá fora é realmente assustador e contrasta com a paz sentida no interior da igreja. Quando saio da igreja, o grupo de irlandeses, que entretanto eu tinha ultrapassado, está na parte final do caminho.

É notória a cara de pânico da senhora mais velha. Custa a imaginar como é que ela conseguiu chegar até aqui.

“Isto é pelos meus mais negros e profundos pecados!” – lamentava-se ela.

Chegada à igreja de Abuna Yemata Guh, Tigray, Etiópia
Chegada à igreja de Abuna Yemata Guh, Tigray, Etiópia

Ao iniciar a descida deparei-me com algo que pensei ter logo percebido o que era: duas pedras achatadas, penduradas por arames num pau. Perguntei ao guia se eram sinos. Ele respondeu afirmativamente.

Esta imagem levou-me até ao livro “Verdadeira informação sobre a terra do Preste João das Índias” onde o padre Francisco Álvares, português que andou por estas terras no século XVI, refere que os sinos aqui usados na época eram de pedra. Mais uma confirmação de que na Etiópia muita coisa está parada no tempo.

Sinos de pedra junto à igreja de Abuna Yemata Guh, Etiópia
Sinos de pedra junto à igreja de Abuna Yemata Guh, Etiópia

 

“Os sinos são de pedra e desta maneira: pedras compridas e delgadas penduradas, atravessadas por cordas, e dão-lhe com uns paus feitiços e fazem som como sinos quebrados ouvidos de longe. “

P.e Francisco Álvares em Verdadeira informação sobre a terra do Preste João das Índias, 1520

Galeria de fotografias da igreja de Abuna Yemata Guh

Mapa das igrejas de Tigray, Etiópia

Olá! Eu sou o Samuel, autor do artigo que acabou de ler. Como você, também gosto de viajar e descobrir povos e lugares. Partilho neste blog as experiências vividas nos vários países por onde já andei. Pode saber mais sobre mim na página Sobre o autor. Espero que tenha gostado e, se tiver alguma coisa a acrescentar, deixe um comentário abaixo.

17 COMENTÁRIOS

  1. Pá se queres que te diga, 300 dólares foi um preço razoável tendo em conta a tua situação. Acho que fizeste muito bem, hoje já não te lembras do dinheiro. Eu pessoalmente tenho pena de não ter visitado, e, só as vi na televisão… Pois é, só vem quem vai, que não vai, fica a chuchar no dedo. As Igrejas talhadas na rocha em Tigray estão na minha lista de coisas a visitar, numa próxima viagem à Etiópia… sim, vai haver uma outra incursão neste fascinante país. Obrigado

    • Eu esqueci logo. Valeu cada cêntimo! Este é um local que só visto. Também espero voltar um dia à Etiópia.

  2. É depois de ler artigos como este que penso quantos locais incríveis deve haver espalhados por este mundo fora que eu não conheço. Houvesse tempo e dinheiro! Obrigada pela partilha deste lugar. É de facto extraordinário e invulgar.

  3. Muito interessante o teu artigo, eu sou um apaixonado por arquitetura religiosa e não fazia ideia que havia este tipo de igrejas na Etiópia, Fiquei com vontade de conhecer!

  4. Tenho tanta mas tanta vontade de conhecer este país. Espero que seja em 2017. O problema é que tenho uma condição essencial para ir à Etiópia: quero pelo menos dois meses lá. A coisa não está fácil.

    • Faz muito sentido essa condição. A Etiópia é um país enorme, muito diversificado e de transportes muito complicados. Eu estive 10 dias, fiz várias viagens internas de avião e mesmo assim vi muito pouco.

      • É mesmo isso. Sinto que se for para lá sem tempo suficiente será um desespero e que vou ficar com mau feitio. 😉 E o meu mau feitio junto do mau feitio (que segundo tu eles têm) não vai ser bom. ehehheh

  5. Um lugar que eu nem fazia ideia que existia… 🙂 … Obrigada pelo post! … aquele caminho é realmente aterrorizador… eu era incapaz que me aventurar… ehehe

  6. Uau! Parece uma autêntica viagem no tempo. Este ano 2 pessoas conseguiram despertar a minha curiosidade por África, e tu foste sem dúvida uma delas! Obrigada 🙂

  7. Post muito interessante sobre um país que para mim é tão desconhecido. Não imaginava a existência destas igrejas e achei realmente incrível sua experiência. Eu tenho muita vontade de conhecer a África. Obrigado pelo post. Abraço do Brasil.

  8. Eh pá, África é o continente que conheço menos! A ver se começo a dedicar-me mais a destinos como este… Um abraço e obrigado pela info!

  9. […] Ambos os hotéis têm restaurante onde se podem tomar as refeições, embora não incluídas no preço.A recepcionista do Africa Hotel falava muito pouco inglês e foi o rapaz de uma agência de viagens que ali funciona que me ajudou na conversação. Consegui ainda (e facilmente) vender-me um tour de dois dias para as Igrejas talhadas na rocha em Tigray. […]

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