Fronteira Mauritânia – Senegal em Rosso; Como passei a fronteira de carro;

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A entrada no Senegal é relativamente fácil a cidadãos europeus, ou pelo menos era até à data da nossa viagem, dado que segundo informações mais recentes foi alterado o sistema de Visto para o Senegal.

O grande problema são mesmo as viaturas. É restringida a entrada a veículos com mais de 5 anos que não se façam acompanhar de Carnet de Passage. Estes, segunda a lei senegalesa teram de ser acompanhados por escolta policial, que viaja no próprio veículo e têm 48 horas para sair do país. O valor a pagar por esta escolta é segundo a embaixada do Senegal em Paris de 150€, que se destinam a pagar os gastos do policia que acompanha a viatura, sendo que caso não seja todo gasto, é devolvida a diferença.

Já a experiência de outros viajantes conta uma história bem diferente. Viatura com mais de 5 anos paga entre 300 a 450€ pela escolta, que depois normalmente acaba por não existir, pois o que eles querem é o dinheiro.

No nosso caso, depois das peripécias que pode ler em baixo, resolvemos o assunto da viatura com 120€!

Sorte ou não é o que peço que os experientes comentem no fim!

Download do Mapa para Google Earth

As formalidades de fronteira do Senegal não são uma história bonita de contar.
Por volta das 11 da manhã chegámos a Rosso, Mauritânia. Enquanto esperamos para passar o portão que dá acesso à zona de embarque no ferry para o Senegal juntam-se à nossa volta miudos que pedem “cadeau”, jovens que perguntam de onde nós vimos, …
“Ah, Portugal, Figo, Deco, Pauleta, …” Todos parecem conhecer melhor do que eu a selecção nacional de futebol.

Entre estes jovens, está o Toino (nome fictício para alguém que vai ser personagem importante nesta história), um rapaz muito bem vestido para o normal naquelas paragens e que parece muito conhecedor das dificuldades de entrada no Senegal. Após observar o carro comenta:
“Este carro tem mais de 5 anos não tem? Não vão poder entrar com ele no Senegal.” No meu pouco francês respondo-lhe que sei que se pode pagar uma escolta, e penso que ele se propôs a ajudar…

Passado algum tempo passamos o portão para a zona de embarque. Começam aqui as negociações. Ao contrário dos policias da fronteira com Marrocos que nos cobraram apenas os 20€ pelo visto de entrada, estes aqui vêm em nós “máquinas de fazer dinheiro”. Pedem quantias absurdas, 100€ por cada carro (o nosso e o do francês que nos acompanha), para o bilhete do ferry e para as formalidades aduaneiras de saída. Após algumas negociações, ameaças de voltarmos para trás e irmos pela barragem, etc, o preço fixa-se nos 40€ cada carro.

Subimos a bordo!

Fronteira de Rosso, Senegal

A travessia é rápida. Desembarcamos, e agora sim é o momento da verdade!

Ao desembarcarmos no Senegal somos orientados pelo Toino e os amigos, que aparentemente são funcionários da fronteira até ao local onde devemos parar a viatura e dirigirmo-nos com os passaportes à casa onde será carimbado o visto de entrada. O processo é um pouco demorado devido à muita gente que se junta ao mesmo tempo vinda do mesmo ferry.

A espera prolonga-se… dá tempo para aparecer alguém que nos lava os vidros do carro, ficando ainda mais sujos do que estavam, e lá somos levados a dar-lhe uma nota de 1000CFA… o Raul, apesar de todos os avisos, não resiste e tira umas fotografias ao rio e ao ferry! Nisto, o Quitério (nome fictício para mais uns dos amigos do Toino), e outros jovens do mesmo estilo, aparecem com uma conversa do tipo “Não pode tirar fotografias!”, “Vamos levá-lo à policia!”, etc… Os ânimos exaltam-se um pouco, mas uma nota de 5€ acalma-os.

Entretanto, são-nos pedidos penso que 1000CFA por cada cabeça (se a memória não me falha), o carimbo de entrada é batido no passaporte e estes são-nos entregues.

Somos então levados pelo Toino até ao edifício das duanas, e estranhamente, não entramos pela porta da frente, como parecia ser normal; somos levados a uma janela nas traseiras do edifício, onde entregamos o livrete do carro, a carta de condução e o passaporte do proprietário. O processo é bastante rápido. Em alguns minutos voltamos a ter nas mãos os documentos e uma folha de autorização temporária de circulação. No passaporte vem registada a entrada do veículo, com o nº de chassis, etc.

Mesmo não querendo deitar foguetes antes de tempo, dou saltos de alegria, sem tirar os pés do chão. Aparentemente a tão mal afamada fronteira do Senegal estava resolvida, e era a mais fácil e mais barata até ao momento. Mal imaginava eu o que ainda estáva para vir.

Entrámos no carro e dirigimo-nos ao portão de saída. Aí, estava o suposto porteiro, o já nosso conhecido Quitério, que nos pede o livrete do carro e abre o portão (ficando com o documento na mão). Saímos e esperamos que ele nos devolva o documento. É então que aparece o Toino a dizer que ele reparou que o carro tem mais de 5 anos.

Começa então o negócio. Juntam-se os “amigos” todos connosco e começam por dizer que vamos ter de pagar a escolta, que são 450€, mas sem grandes insistencia baixam para os 350€. Com muita calma, lá tentamos explicar aos “senhores” que antes de virmos falamos com a embaixada do Senegal em Paris (e foi verdade) e que lá nos informaram que era necessário escolta sim, mas que o valor a pagar era de 100€, e apenas tinha-mos esse dinheiro connosco para essa despesa. A resposta deles foi que a embaixada não tem sabe nada destes assuntos. Estivemos nisto um bocado até que houve uma cedência da parte deles: “Ok, vejam então se conseguem arranjar 150€”. Dissemos-lhes que ia-mos ver o que conseguíamos arranjar, porque só tinhamos 100, e depois ficávamos sem dinheiro para o resto da viagem.

Fomos ao carro, pegamos em 120€ e fomos ter com eles, que já se tinham entretanto mudado para um local mais recatado, atrás de um camião que lá estava parado. Eles entregaram-nos o livrete e nós os 120€. Um outro sujeito, mais velho que os outros, que tinha aspecto de ser o chefe da “quadrilha” garantiu-nos que não ia-mos ter problemas, que podíamos seguir viagem e que não era preciso escolta nenhuma. Sem perder tempo fomos para o carro e seguimos em frente.

Desta vez já não deitei foguetes. Será que já tinhamos passado tudo, ou ainda ia aparecer mais alguém para nos extorquir euros?

Quinhentos metros depois os nossos piores receios tornaram-se reais. Ainda havia mais um controlo. Paramos, o agente (fardado) dirigiu-se a nós e mandou-nos ir à casa ali ao lado com o livrete e a folha de circulação. Enquanto estava à espera da minha vez deu para ver que o que ali se fazia era apenas carimbar autorização de circulação. Visto isto, coloquei o livrete no bolso, pois a data podia-nos denunciar outra vez, e quando chegou a minha vez entreguei apenas a folha, que rapidamente ficou vermelha com as porradas do carimbo.

Esquecimento ou não, o que é certo é que ele não me pediu o livrete e 5 minutos depois já estávamos de novo a andar, e a partir daqui a única preocupação eram os buracos, coisa que ainda não tínhamos vistos em toda a viagem e os policias corruptos que fazem tudo para nos extorquir dinheiro… mas isso é outra história.

Depois disto, agradeço a todos os que tenham alguma experiência ou informação actualizada de fronteiras senegalesas que deixem a sua opinião acerca do que se passou connosco.

É que só vejo duas explicações para o que se passou:
1- Já não é preciso escolta nenhuma, nem carnet, eles simplesmente carimbam a entrada do veículo no passaporte, como fazem na Mauritânia, e aqueles 120€ que pagamos foi apenas um resgate pelos documentos de que os outros se apoderaram;
ou
2- É preciso escolta sim, mas o Toino e os amigos estão todos feitos com os funcionários da duana, eles lá deixam-nos passar, mas depois á saída temos de pagar uma “grojeta” para ser dividida por eles e pelos funcionários.

Uma coisa é certa, gastámos apenas mais 20€ que o mínimo que prevíamos gastar, seguimos viagem sem escolta nenhuma, e às 3 da tarde estávamos em St. Luis a almoçar.

4 COMENTÁRIOS

  1. Samuel Santos e João Leitão
    Gosto dos vossos textos e deslumbro-me com as vossas viagens.
    Os meus comentários são tão somente umas dicas nascidas das minhas diversas andanças por estas rotas africanas, mais actuais e detalhadas. Não quero parecer intrometida ou pavão 🙂
    Fronteira do Senegal – aqueles benditos portões de Rosso só foram cruzados por mim uma vez (a primeira viagem) e que apelidei de ‘polo de ladrões’.
    Aconselho a entrada por Djama e seguir pelo Parque Nacional de Diawing até Saint Louis.
    Há mesmo um decreto que inibe a entrada de viaturas com mais de 5 anos mas esse decreto não pode impedir o atravessamento do território.
    Nunca tive nem paguei escolta; Hoje já tenho ‘amigos’ e contactos que me facilitam tudo mas comecei por negociar :– Pass-avant 2500 XOF + (€ 50 / viatura só à entrada de Djama) Barragem € 10/viatura + Polícia € 10 /Passaporte

  2. Relativamente ao Senegal quero dizer que este país é dos mais evoluídos de toda a África. Eu vivi 20 meses em Dakar há alguns anos e voltei, por uma semana, no passado mês de Julho, aquando da minha estadia anterior em Dakar deslocava-me constantemente a Nouakchott o que me deu a possibilidade de conhecer muito bem as fronteiras de Rosso (Senegal e Mauritânia).

    Efectivamente hoje há o problema do limite da idade dos carros o que é mais um factor de corrupção mas aconselho a ter calma e negociar com os Aduaneiros ou os Polícias com a educação necessária e o pragmatismo adequado, pois a grande maioria dos Senegaleses têm uma escolaridade razoável e são gentis o problema são os baixoa salários. Os Toinos e outros são expedientes que são sempre de evitar mas não hostilizar. Eu, próprio, tinha lá um tipo que me resolvia todos os assuntos sem eu sair do carro mas ao princípio foi complicado. Posteriormente passava quase exclusivamente pela barragem. O Senegal é um país onde existe a Democracia parlamentar e alternância de poder bem como todas as outras Instituições e que vão funcionando, num estilo africano é certo, mas funcionam.

    No Senegal não tenham medo, negociem!

  3. (comentário de joão leitão em http://dobrarfronteiras.blogspot.com/2007/01/nono-estranha-fronteira-parte-2.html)
    Olá!
    Muitos parabéns pelos teus relatos. Os viajantes portugueses precisam de informação escrita no nosso idioma!
    Bem, como experiências de fronteiras é assim, das que tive e do que vi:
    -é na mesma necessário o carnet de passage en douane, mas, eles na fronteira fazem mais pontaria aos cotas com grandes jipes, ou, nacionalidades com mais endinheiradas. Jovens estãosempre um pouco mais relaxados quanto a pagarem os tais 450EUROS;
    -o tal 2º polícia esqueceu-se mesmo de verificar o carnet, pois… hehe, vi eu um francês que teve depois de pagar “pó saco azul” aos 1ºs policias, foi logo agarrado a seguir… haha, que vontade de rir dá agora né?!;
    -já fiquei retido na fronteira por ir num Patrol de 86 sem carnet. Como o Patrol era de um suiço, eles não deram abébias…tinha mesmo que ser com escolta. O suiço ofereceu 300EUROS assim por baixo mas os gajos não aceitaram. Queriam os 450, e mais para irmos sozinhos… lol. O suiço quase que lhes agrediu e foi mesmo sensato não seguirmos viagem pois podiamos ser abatidos depois daquela festa toda;
    -já passei sem problemas com um carro com menos de 4 anos. Eles queriam-me fazer pagar a escolta mas mandei-os passear já que o meu carro estava na idade estipulada para entrada;
    -já vi, motards com motas mais de 4 anos a deixarem-nas na fronteira e apanharem um táxi até Saint Louis;
    -Já vi uns espanhóis a deixarem o carro na fronteira e irem de táxi;
    Olha fica bem e espero ver mais coisas no teu novo BLOG.
    Não hesites em te juntar ao Évora – Niamey 2008!!
    Um abraço aqui de Évora.

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