De comboio por Moçambique: de Cuamba a Nampula

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No verão de 2006, depois de ter já sido picado pelo bichinho das viagens na Guiné-Bissau no ano anterior, vi um documentário do Michael Pallin no qual ele viajava em direcção ao deserto do Sahara, tomando entre outros transportes o comboio de Dakar para Bamako. Fiquei fascinado com aquela confusão na estação, os assentos desconfortáveis, as paisagens a correrem nas janelas, os atrasos de horas. Queria andar de comboio em África.

Teria de esperar alguns anos, até chegar aqui, a Moçambique, para ver diante de mim a oportunidade de fazer uma viagem de um dia inteiro atravessando quase a totalidade do país até junto da costa.

Não houve atrasos e os assentos nem por isso eram desconfortáveis, mas a confusão nas estações e no comboio, as paisagens maravilhosas a correr nas janelas e os negócios de ocasião em cada paragem, estava tudo lá. Um comboio em África!

Um comboio em África: as colossais montanhas na planície africana

A viagem

Tanto quanto sei só há duas linhas ferroviárias a operar em Moçambique: entre Maputo e a fronteira de Ressano Garcia, de onde se pode do lado Sul Africano apanhar outro comboio para Johannesburgo e esta, a operar com passageiros entre Nampula e Cuamba.

Em breve haverá mais: há linhas de comboio em construção na província de Tete, no sul do Malawi, que iram dar ligação a esta linha e ao porto de Nacala, o que irá revolucionar o transporte terrestre por estas bandas. Ouvi dizer que já há comboios de passageiros a circular periodicamente até à fronteira com o Malawi.

Mas vamos ao que é possível fazer agora (2014). Eu fiz a viagem com a minha irmã ao longo de toda a linha em que há transporte de passageiros: de Cuamba a Nampula. A viagem demorou cerca de 11 horas: saímos às 6h05, com 5 minutos de atraso e chegámos às 17h08 a Nampula.

Às 5h00 da manha o comboio já esta aberto para os passageiros começarem a entra, e convém mesmo ir cedo se quer escolher o lugar. As primeiras carruagens a encher são obviamente as  que estão mais próximas da plataforma. A composição é bastante comprida e caminhando pela linha vai encontrar muitos lugares mais à frente.

O cenário repetido em cada estação – comboio Moçambique

Há várias paragens ao longo da viagem, normalmente de uns 10 minutos, em que a população local aproveita para fazer negócio à janela do comboio vendendo comida para todos os gostos. É visível que há muitos passageiros que aproveitam a viagem para comprar grandes quantidades de vegetais, fruta e cereais aos produtores, que são mais caros que na cidade.

Para além do comércio há janela, o próprio comboio tem serviço de “restaurante” que há hora de almoço vende refeições quentes em couvetes de esferovite. Eu comi uma dessas refeições, comi à janela fruta, peixe frito com molho, refrigerantes e até salada e não apanhei caganeira.

Em relação à paisagem não preciso dizer nada: as fotografias falam por si. O norte de Moçambique é dominado por planícies cravejadas de montanhas monolíticas de granito, que vão diminuindo de frequência conforme nos aproximamos de Nampula.

Não há restrições quanto à abertura de janelas, pelo que se está à vontade para tirar fotografias e por a cabeça de fora (com o devido cuidado, obviamente)

A chegada a Nampula ocorreu já de noite. A zona em redor da estação é um pouco perigosa com assaltos frequentes, pelo que é conveniente apanhar um táxi (eu diria mesmo obrigatório se chegar de noite, sozinho(a)).

Bilhetes e Horários

As coisas mudam, e nos transportes em África, mudam com muita frequência, por isso confirme sempre os horários no dia anterior.

Ainda 1 ano antes a minha irma tinha viajado neste comboio e a frequência era diária, mas quando chegámos para comprar os bilhetes ficamos a saber que agora era dia sim, dia não:

  • Quartas, Sextas e Domingos: Cuamba > Nampula
  • Terças, Quintas e Sábados: Nampula > Cuamba

Partidas de Cuamba (e penso que de Nampula também) às 6h00 da manhã.

Interior da carruagem de 2ª Classe – comboio Moçambique

Os bilhetes são vendidos no dia anterior nas respectivas estações. A nós aconteceu-nos chegar às 14h00 (hora de a bilheteira abre de tarde) e já não haver bilhetes. Disseram-nos para voltar à 5, quando o comboio chega que já haveria mais bilhetes. Pelas 15h00 já havia uma fila enorme, cómicamente compacta, que rapidamente se desdobrou em duas, uma para homens outra para mulheres.

A das mulheres é normalmente mais pequena, pelo que é de aproveitar se for o caso…

As classes disponíveis (nem todos os dias) e preços, são:

  • 2ª classe: 170Mt
  • 1ª classe: 400Mt
  • Executiva: 600Mt

Segundo relato da minha irmã e de outras raparigas, mulheres sozinhas devem viajar em “executiva” e ter especial cuidado à chegada a Nampula pois há relatos de tentativas de assaltos.

Mapa do percurso

Olá! Eu sou o Samuel, autor do artigo que acabou de ler. Como você, também gosto de viajar e descobrir povos e lugares. Partilho neste blog as experiências vividas nos vários países por onde já andei. Pode saber mais sobre mim na página Sobre o autor. Espero que tenha gostado e, se tiver alguma coisa a acrescentar, deixe um comentário abaixo.

3 COMENTÁRIOS

  1. Deve ser uma viagem maravilhosa percorrendo e mirando esta parte de África. Pode ser que ainda a venha a fazer um dia. Boa informação. Obrigado.

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