Barragem de Cahora Bassa, Moçambique

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Quando comecei a traçar o meu roteiro por Moçambique decidi desde logo incluir um lugar pouco comum: a barragem de Cahora Bassa e os milhares de quilómetros de linha de muito alta tensão em corrente contínua que a ligam a Johannesburg, obras-primas da engenharia portuguesa.

Sabia que não ia ser fácil lá chegar, seria até mesmo impossível, já que o local é de acesso demasiado restrito, mas resolvi arriscar.

Carrinhas de 9 lugares onde cabem 20 pessoas, outras de caixa aberta, as “chapas”, onde em cima da carga já excessiva se empilham ainda alguns quilos de humanos, levaram-me montanha acima, até Songo, uma vila construída à medida dos técnicos da barragem.

Cheguei a Tete pelo meio dia, depois de muitas horas de viagem de autocarro desde Harare, no Zimbábue. Estava ali para ir a Cahora Bassa. Indaguei junto do único passageiro que saiu comigo onde conseguiria transporte para Songo. No local que ele me indicou conheci, dentro da carrinha, um outro passageiro, branco.

Chamava-se Sérgio, era ucraniano e estava ali a trabalhar como voluntário. Falámos durante grande parte da viagem, ora em inglês ora e português. Dormi também, como forma de anestesiar as dores que os milhares de quilómetros acumulados em bancos nem sempre confortáveis.

Acabou por me convidar para passar a noite na comunidade e que trabalhava. Eu, ia no meu estado natural, cego pelo objectivo de chegar a Cahora Bassa. Em momento algum me preocupei onde ia dormir essa noite. Ia entregue ao destino sem reparar que os centimetros que no mapa da imensidão de África separam Tete da barragem são afinal mais de 100 quilómetros

Passei essa noite próximo de Chitima a uns meros 30 quilómetros do meu objectivo onde chegámos já ao anoitecer. Comi, rezei e falei com o Sérgio e os estantes voluntário: várias raparigas ucranianas e americanas que estão ali com o objectivo de construir um orfanato.

A minha tenda sob o ebomdeiro, ainda na penumbra
A minha tenda sob o ebomdeiro, ainda na penumbra

Emprestam-me um tenda para dormir lá fora junto à tenda de circo que por agora serve de igreja. Acordei antes do amanhecer para conseguir transporte até Songo. Só então tive a noção do local onde acabara de passar a noite. A minha primeira noite em Moçambique.

De chapa serra acima até Songo
De chapa serra acima até Songo
Longas horas de espera no cruzamento de Chitima
Longas horas de espera no cruzamento de Chitima
o velho
O meu companheiro na boleia para Cahora Bassa

O último troço, a sinuosa descida para o vale do Zambeze, só a pé ou à boleia, por uma estrada ladeada de volumosos tubos de água e postes de alta tensão. Ao fim duns 100 metros já tinha boleia numa carrinha de trabalhadores, que logo de seguida voltou a parar, desta vez para deixar subir um velho. Digo velho, porque em Moçambique, apesar do português nem sempre ser bem falado, tudo é chamado pelo nome: os velhos são velhos, os pretos são pretos e os brancos são brancos (ou mucunhas). Não é necessário recorrer a jogos de palavras (como a “terceira idade” ou os “afro americanos”) ou a estrangeirismos (como os modernos “seniores”) para descrever alguém.

Da barragem pouco mais vi que o Zambeze entalado entre rochedos e coroado, ao fundo, por uma orla de betão que foi capaz de dominar as mesmas águas selvagens que mais acima se precipitaram nas cataratas Vitória e deram de beber aos animais da selva. Entrar lá, só com autorização de Maputo.

No regresso volto a passar pelo velho. Trabalha no campo, bebe da água que corre no riacho e, quando a noite cair irá dormir, porque a electricidade de Cahora Bassa, estará nessa altura a iluminar a noite de Johannesburg.

Cahora Bassa
A visita possível à barragem de Cahora Bassa
Eu na barragem de Cahora Bassa
Eu na barragem de Cahora Bassa

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