2010-06-06 Dogubayazit

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Acordo noutro mundo, depois duma noite bem dormida no autocarro. A paisagem lá fora é como um deserto, mas verde. Não há árvores mas o chão é coberto de uma fina camada de erva. Ao longe há algumas montanhas e por detrás destas, espreita pela neblina matinal um cume coberto de neve. Não sei onde estou. Tudo é tão diferente do local onde adormeci! Sei que a minha viagem vai terminar no sopé do monte Ararat, mas aquele cume visto daqui parece-me pequeno demais para uma montanha de proporções bíblicas.

Dogubayazit

Poucos minutos depois chego a Dogubayazit, com a cidade ainda a acordar. Devem ser umas 6 da manhã. Sento-me num banco junto à garagem. Por esta hora está a passar o carro do lixo que despeja os contentores e recolhe o lixo, que à falta deste é deixado em montes no chão. Tal como vou ver no resto da cidade, mesmo com poucos recursos, um clima e um terreno nada favoráveis, nota-se um enorme esforço por manterem a cidade limpa e cuidada e, mesmo que em volta tudo seja árido, quase desértico, há por aqui lindos jardins sempre bem cuidados.

Junta-se a mim um rapaz que trabalha aqui numa companhia de autocarros. Mais que tentar vender-me bilhetes, quer também falar um pouco, praticar o seu reduzido inglês e partilhar as dificuldades por que os Curdos passam. Bebemos um chá acompanhado por uns deliciosos pães de leite recheados com queijo que um miúdo vende pelas ruas.

Depois de arranjar hotel e deixar a mochila, apanho um mini-autocarro até ao Palácio de Ishak, o motivo da minha passagem por Dogubayazit. À primeira vista corresponde às expectativas, excepto num pormenor que parece não se enquadrar no conjunto: a antiga cobertura foi substituída por uma nova de madeira, ferro e vidro. De fora parece um erro arquitectónico, mas por dentro, conjugado com o restauro que ainda decorre e com a luz radiante do sol, todo o conjunto, cada sala, cada porta, cada recanto, parece saído dum conto das mil e uma noites.

Palácio de Ishak Pasha, Doğubeyazıt, Turquia

Mais acima, depois dum mausoléu há ainda os restos dum antigo castelo e uma mesquita junto aos quais muitas famílias fazem picnics e alguns matam mesmo ali os carneiros para a refeição. É Domingo. Por estes lados o pic-nic é levado muito a sério. Há mesmo parques de “campismo e pic-nic”, onde se podem encontrar mesas, casas de banho entre outras facilidades entre as quais, muito importante aqui, árvores para comer à sombra. Aqui, há quem mate um carneiro para assar para a família, ali, há gente a fumar. Parece que toda a gente com mais de 8 anos fuma. Exagero, mas que há muitos fumadores há, desde homens a mulheres e até crianças. Acolá, no cimo da montanha, um casal de namorados foge para trás de uns rochedos.

Palácio de Ishak Pasha, Doğubeyazıt, Turquia

Em vez de descer pela estrada ou apanhar o mini autocarro acabo por me meter pelo meio das colinas na esperança de conseguir uma foto em que enquadre o palácio e o monte Ararat, como aparece nos postais. Depois de muito caminhar acabo por descobrir que isso é impossível: as dos postais são afinal montagens. Assim, desço até Dogubayazit. O Sol abrasador que apanho nos 4 ou 5km de caminhada fazem-me o primeiro escaldão no pescoço desta viagem.

Ao chegar à cidade sou abordado pelos vendedores de uma loja de artesanato à beira da estrada. É claro que querem é fazer negócio, mas acabo por ficar com eles um bom bocado à conversa e a beber chá. No final trago uns brincos para a minha namorada.

A cidade é muito organizada, pelo menos a rua central, sempre com gente a circular, muitas flores e gente a limpar o pó que teima em soprar do quase deserto que a rodeia. Uma luta desigual que a maior parte das pessoas não teimaria em continuar, mas aqui está ganha.

Troveja ao longe a e chuva ameaça cair, mas decido caminhar até junto da E80. É uma forma de matar saudades. A E80 é uma estrada que liga Lisboa ao Irão e tem aqui os seus últimos quilómetros. Apanho uma molha, mas o forte calor rapidamente me seca.

Dogubayazit

Em Dogubayazit tudo gira em torno da rua Agri. É aí que encontro um barbeiro que me corta os pelos da cara a primeira vez desde que saí de Portugal, que janto numa banca da rua, que como um delicioso gelado, que vou à net num cybercafé, que falo com muitos curdo interessados em saber de onde venho, assim como eu estou interessado em saber mais sobre eles e a sua terra.

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