19-08-2009 Carcassonne, Canal du Midi, Albi, Millau, Mende

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Acordei pela primeira vez nesta viagem sem fazer a menor ideia de onde me iria deitar quando o Sol se voltasse a esconder. Saí às 8 da manhã e fui para o centro da cidade, para iniciar a minha caminhada pelas margens do canal do Midi. Impressionante obra de engenharia do século XVII. Este canal artificial, construído durante a revolução industrial como via de transporte, une o Mar Mediterrâneo ao Oceano Atlântico, tornando teoricamente a península Ibérica numa ilha.

Cidade Fortificada de Carcassonne, França

Faço esta agradável caminhada  matinal no caminho que acompanha o canal, cruzando-me com algumas outras pessoas, tanto a pé como de bicicleta. Consigo finalmente a tão desejada vista panorâmica das muralhas de Carcassonne, e pelo caminho acompanho o trajecto dum barco na passagem das sucessivas comportas. Ainda tento apanhar uma boleia dele para passar uma comporta, mas é-me recusado visto ser um barco duma colónia de férias para crianças.

Canal do Midi junto a Carcassonne, França

Na rotunda que tinha visto no Google Earth como bom local para apanhar boleia não vi indicação de Albi e quando fui a consultar o meu mapa acabei por perder o meu chapéu semi-precioso que já me tinha acompanhado na viagem pelo médio oriente no ano anterior. Custou-me, mas ao mesmo tempo foi um alivio. Uso-o pouco, e embora não pese nada, não dá jeito andar com ele. Segui em frente e 15 minutos depois estava dentro dum carro por 5km, para esperar mais 15 e ter uma boleia directa para Castre num carro conduzido à direita por um senhor inglês emigrante em França.

Monumento ao Peregrino de Santiago em Castres, França

Deixa-me em Castre junto a uma estátua do peregrino de Santiago. Estes locais tocam-me de perto, pois agora também sou um deles. Tenho pouco tempo para este local que fica na rota da mais antiga peregrinação cristã, e depois de comprar alguma comida segue-se uma demorada espera de 30 minutos por uma boleia para Albi. Lá parou um casal jovem que me levou por 5km até um cruzamento no meio do nada onde esperei 5 minutos por um senhor que me levou por mais 10km até ao local onde arranjaria a boleia final para Albi.

Catedral de Albi

Fiquei à entrada da cidade, já com a impressionante torre de tijolo da catedral à vista. Tive uma longa caminhada porque me perdi pelas ruelas. De uma belíssima riqueza por dentro e uma original arquitectura por fora, esta catedral é invulgarmente construída de tijolo, tendo sido por dentro ricamente decorada por artistas italianos no renascimento. Problema: mais uma vez o excesso de turista que descaracterizam o local como lugar de culto religioso com os seus flashs e guias nas mãos e ouvidos. Adoro visitar lugares religiosos, e são por norma prioridade nas minhas viagens. Mas estes afastam-me. Prefiro aquelas mosteiros e pequenas capelas afastados do mundo, onde de preferência não se vá de carro. Assim apenas lá chegam os verdadeiros peregrinos.

Albi

Neste caso opto por refrescar cá fora numa fonte que se encontra ali mesmo ao lado e onde algumas crianças já se encontram. Banho-me, seco, e caminho para a saída da cidade. Em 10 minutos arranjo boleia dum rapaz que também está habituado a estas lides e que me leva quase até Millau, o meu próximo destino. Pára uns quilómetros antes de St Áfrique, uma cidade onde chego depois noutra boleia e que fico com pena de não visitar, mas não posso ver tudo. A senhora deixa-me à saída da localidade e o terceiro carro pára e leva-me até Millau. Decidi fazer o meu itinerário passar por aqui para ver com os meus olhos o viaduto que à pouco tempo colocou esta cidade no mapa: a mais alta ponte do mundo. O rapaz, embora só fale francês, o que dificulta muito a comunicação compreende esse meu interesse e até pára num ponto estratégico para eu tirar umas fotos.

Viaducto de Millau, França

Infelizmente não percebe muito de estradas. Passa a cidade toda e deixa-me num ponto de acesso à autoestrada, como sendo o ponto ideal para ir até Mende. Por fim lá pára um carro, que também parece não ser dali, e procura no mapa por Mende. Dizem-me que devo estar no local errado. Também imagino que sim, pois segundo a minha pesquisa prévia, haviam duas possibilidades para ir de Millau para Mende, e a outra parecia-me melhor que esta. Por isso caminho por cerca de 1,5 km até à outra rotunda de saída e tento aí a minha sorte. O sol começa já a esconder-se mas estou decidido a ir até não poder mais. Talvez até desse na outra rotunda, mas aqui, depois de 15 minutos pára um senhor que me leva por 5km até  à povoação seguinte. À chegada, um carro de frente faz sinal de luzes: vêm dois cães a correr à frente dos carros em sentido contrário. Nas minhas viagens costumo beber água que recolhor em fontes ou casas de banho, mas aqui a única fonte anuncia água não potável. Peço a umas raparigas que estão na rua a conversar junto as suas casas para me encherem a garrafa e uma vai prontamente a casa encher-me a garrafa.

Enquanto espero por boleia debaixo da ponte ferroviária, aparece uma rapariga que me pergunta se eu vi dois cães. Digo-lhe que sim, e tento no meu fraco francês explicar-lhe que foi lá muito à frente, do outro lado da aldeia. Ainda assim ela vai a correr atrás deles. Entretanto aparece mais um rapaz à procura dos “chiens”. Confirma-me que são brancos, e eu volto a dar a mesma indicação. Começo a fazer filmes da saga desta família em buscas dos dois cães que lá à frente corriam para a liberdade! Por fim, pouco antes de apanhar boleia, chegou aquele que imagino ser o avô a perguntar se havia sido eu a ver os dois cães. Volto a contar de novo a mesma história com a qual  fui praticando o meu francês  e ele lá parte, como guarda prisional em busca dos evadidos. Eu apanho boleia de um homem por uma boa quantidade de quilómetros.

Alguém me disse que hoje era o dia mais quente do ano em França. Isso suportei. O que me preocupa é a tempestade que se começa a desenhar no horizonte. Fico numa rotunda que dá acesso à autoestrada que vai em direcção a Mende, e onde supostamente será fácil de arranjar boleia. No entanto tenho pouca esperança. Está mesmo a anoitecer, e se em meia hora não conseguir boleia terei de procurar onde dormir na estação de serviço ali ao lado. Ao fim de 10 minutos, contra todas as expectativas pára um carro. Do Audi topo de gama, branco, lindo, sai uma loira ainda mais bonita. Penso que só podem estar a gozar comigo. Até aqui apenas consegui boleias de “pobres”. Mas não. São dois autênticos franceses ricalhaços, com um carro com mais botões que um avião e que vão directamente para Mende. A rapariga dá saltos e esperneia de alegria cada vez que vê um trovão. Eu também adoro este espectáculo da natureza, mas à alegria junta-se a preocupação de não ter sitio para dormir esta noite. Confio na sorte que me tem acompanhado toda a viagem. Pelo telefone ficamos a saber que chove torrencialmente em Mende, e que a cidade está às escuras. A paisagem das montanhas que rodeiam a cidade é lindíssima, com florestas de que molhadas ganham ainda mais encanto. Aproximamo-nos da cidade por uma colina, e fico a perceber o que ele me quis dizer acerca de Vila Real. Há uma germinação entre as duas cidades. Aqui parecem viver 1500 portugueses numa população de 15000.  A chuva já terminou quando chegamos, e resta agora aos bombeiros tirar a água das caves. A iluminação essa, ainda está a meio gás e os relâmpagos ao longe dão um aspecto de cidade fantasma. Descubro logo um bom local para dormir, o alpendre da porta da catedral, mas ainda assim dou uma volta pela cidade, com o meu cachecol português bem pendurado na mochila, na esperança de encontrar algum tuga. Mas não. Estico então a minha colchonete em frente à porta, juntamente com um jovem sem abrigo que acompanhado do seu gato já dorme ali à duas semanas.

Catedral de Mende, França

Não sei como terminou a história dos cães, que fugiram da segurança da sua casa em busca da liberdade, como irá ser assustadora a sua noite. A minha será aqui, com um sem abrigo, às portas de uma catedral, numa cidade que parece assombrada, mas que me transmite uma enorme segurança. Não há onde tomar banho. É esse hoje o preço da minha liberdade.

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5 COMENTÁRIOS

  1. eheh, na verdade também ando a gostar de ler algumas coisas que escrevo 😀 lool

    Bom na verdade eu se calhar também exagero um bocado, mas aí em Albi quem lá vai é mesmo para ver a igreja. Aquilo é tipo Capela Sistina em grande. Uma verdadeira obra de arte.

  2. “Acordei pela primeira vez nesta viagem sem fazer a menor ideia de onde me iria deitar quando o Sol se voltasse a esconder” –> lol, este é um problema matinal um pouco existêncial. a mim já me aconteceu várias vezes, mas nunca fiquei sem tecto lolol

    “Ainda tento apanhar uma boleia dele para passar uma comporta, mas é-me recusado visto ser um barco duma colónia de férias para crianças.” –> será que tinhas cara de Bibi?

    Que cena, nunca pensei que essa área andasse infestada de turistas a ver igrejas, catedrais e mosteiros..

    Perseguição canina, boleias para dar e vender. Isto é uma verdadeira aventura rapaz…

    “Não sei como terminou a história dos cães, que fugiram da segurança da sua casa em busca da liberdade, como irá ser assustadora a sua noite. A minha será aqui, com um sem abrigo, às portas de uma catedral, numa cidade que parece assombrada, mas que me transmite uma enorme segurança. Não há onde tomar banho. É esse hoje o preço da minha liberdade.” –> que desfecho formidável,lol….fico a aguardar novos relatos*

    Também gostei de Carcassone

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