26-08-2009 Avignon, Pont du Gard, Arles
Saio de manhã com a Bérénice que me dá boleia até Avignon. Hoje quero ir até á Pont du Gard, e para isso ela deixa-me junto à ponte onde começa a estrada que segue para esse lado. É uma via rápida, sem locais para os carros pararem. Está enevoado, logo não muito quente, e hoje acordei cheio de energia. Por isso decido caminhar e faço uns quilómetros pela berma da estrada, até que chego a uma zona em que não há berma. Saio da estrada, e para espanto meu, paralelo a esta passa um trilho G.R. sinalizado também com a concha de Santiago. Rapidamente vejo que os sinais se sucedem. Estou no caminho de Santiago, ainda que a mais de 1000km do túmulo do apóstolo.
Tinha lido em algum lado que passava uma Grand Randoné pela Pont du Gard. Seriam uns 25km a pé, por isso pus-me a caminho. Ora acontece que pouco depois chego a uma bifurcação. Para um lado segue a GR 63, para o outro a GR 42, que corresponde ao caminho de Santiago. A verdade é que naquela manhã me sentia capaz de deixar tudo e caminhar até Santiago. Achei também mais provável que fosse a GR42 a passar na Pont du Gard, já que os primeiros peregrinos usavam estas pontes para chegar a Compostela. Como não tenho nenhum mapa decente que me indique onde fica a ponte ou onde estou, sigo o instinto. Com o aproximar do meio dia, as nuvens abrem-se e o Sol revela-se escaldante como nos últimos dias. O caminho faz-se na sua maioria pelo meio de vinhas. Como já tenho pouca água, roubo algumas uvas, ainda que com algum medo de estarem pulverizadas.
Começo a ficar preocupado quando a minha garrafa seca e a sede aumenta, sem haver nada mais que vinhas que nem sei se não estarão envenenadas
. Na verdade não me tinha preparado para isto, mas a sorte dos últimos dias acompanha-me, e numa visão épica começa a desenhar-se por cima das vinhas uma aldeia medieval no cimo duma colina. Adoro esta sensação, de estar perdido, sem água, apenas a seguir umas marcas que não sei muito bem onde me levaram, e de repente deparar-me com um oásis destes.
Subo até ao topo de Théziers onde se encontra a igreja e o “Hotel de Ville”. É o único local aberto onde vejo alguém. Dão-me água, mas não têm um mapa da região. Dizem-me que a Pont du Gard fica para Norte. Vasculho no meio dos papeis de informação turística e lá descubro um livrinho que tem um pequeno mapa. Mais tarde viria a descobrir que no verso tinha um mapa mais detalhado, onde até vêm as Grand Randonnes, e que na verdade, para chegar ao aqueduto devia ter seguido a 63 e não a 42.
Recomposto, caminho por mais 4km por entre uma belíssima paisagem de vinhas a perder de vista até Montfrin, localidade onde apanho boleia para os 8km que agora me separam de Remoulins, a vila vizinha da Pont du Gard. Finalmente chego a um monumento UNESCO em França que vale mesmo a pena! O aqueduto/ponte é realmente soberbo, e está encaixado num vale lindíssimo. O acesso ao local é livre, e apenas se paga para visitar o museu ou para caminhar sobre o topo do aqueduto. No entanto não encontro o museu, e a entrada para o topo do aqueduto é demasiado em cima para o meu cansaço.
Bem mais interessante é o rio, que embora de água demasiado fresca para o meu gosto me convida a um banho para refrescar deste cansativo dia. Depois de ceder à tentação e comer um gelado, caminho para a rotunda. Parece não estar fácil, mas depois duns 20 minutos pára um senhor agricultor que me pergunta para onde vou. “Arles!”. “Vous avez beaucup de chance! Je va a Arles!” E é verdade, tenho mesmo muita sorte. Conseguir uma boleia directa para os 35km que me separam de Arles não éra o que eu estava à espera!
Novamente chego a uma localidade sem ter onde dormir. Enviei ontem algumas mensagens pelo CS, mas não sei se alguém terá respondido. Preciso portanto de encontrar um cyber cafe. O posto de turismo já está fechado, e depois de correr pela cidade encontro um 5 minutos antes dele fechar. Tempo apenas para conseguir o numero de um rapaz e enviar um sms. A resposta é positiva. Volto ao posto de turismo para procurar no mapa onde fica a rua dele. Mesmo a chegar lá oiço falar português. Agora sim, encontro por fim os primeiro emigrantes portugueses em França. Um rapaz jovem e a sua mulher brasileira. Ficamos um bocado à conversa. Dizem-me que não é costume aparecerem viajantes portugueses de mochila às costas, e que os espirito comunitário entre os portugueses emigrantes está muito degradado. Com a ajuda deles lá encontro a rua no mapa.
O rapaz que me recebe é um autentico jovem rebelde. Vive num “apartamento” na zona histórica da cidade, que hoje está quase dominada por emigrantes árabes, e que por vezes me confunde. Não sei se estou em França se em Marrocos. A casa dele é o cumulo da desarrumação. Logo à entrada tem de se passar por cima dum sofá que está entalado no corredor. O resto é triste contar.
Encontro-o a ele com mais alguns amigos, um dos quais lhes está a ensinar guitarra. Percebe de música, e ainda aprendo alguma coisa com ele. Recuso o convite para sair. Estou demasiado cansado.
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2 Comments para “26-08-2009 Avignon, Pont du Gard, Arles”
Pont du Gard (Aqueduto Romano), Património UNESCO em França | Dobrar Fronteiras — 21/01/2010 @ 8:49 pm
Viagem a Madrid, Andorra, França e Mónaco em Agosto de 2009 | Dobrar Fronteiras — 26/02/2010 @ 10:54 pm
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