20-08-2009 Mende, Le Puy, Ardèche
Ontem avancei mais no terreno do que estava previsto, por isso hoje, arranco um cartaz duma montra e escrevo nas costas “Le Puy”. São 7 da manhã e já estou na estrada. No primeiro local onde paro rapidamente começa a dar o Sol por trás que encadeia os condutores e por isso caminho um pouco mais para fora da cidade. Aí rapidamente pára um senhor que me leva por alguns quilómetros, deixando-me num vale no meio das montanhas, com o nevoeiro matinal a pairar sobre os pastos.
Apenas há uma casa ali ao lado e passam poucos carros, mas isso incomoda-me pouco pois o local é acolhedor. Esperei quase meia hora até que parasse um jovem que me levou por mais uns quilómetros até junto de um cruzamento. Embora esteja numa estrada principal, esta é uma zona muito rural do país, e por isso pouco movimentada. Espero novamente meia hora até que pára uma senhora que vai para Le Puy. Ao inicio acho estranho ela parar, pois vem sozinha com o seu filho na cadeirinha do banco de trás, e a experiência começa-me a dizer que as pessoas que vêm com filhos novos não param. ou têm medo, ou não querem que os filhos comecem a pensar seguir esta vida
Pelo caminho vejo os meus primeiros “colegas”. Um casal com estilo muito hippy que acaba de apanhar boleia também em direcção a Le Puy.
Esta senhora vem a revelar-se muito simpática e dá mesmo umas voltas pela cidade para me levar ao ponto central: a capela de St. Michele. Le Puy é um dos mais importantes pontos de passagem do caminho de Santiago por França, sendo ainda hoje escolhidos por muitos peregrinos para iniciarem o seu caminho. A capela de St. Michele encontra-se no topo dum pico de rocha vulcânica e para lá chegar é preciso pagar os 2,5€ e subir uns quantos degraus. Pela escadaria ultrapasso uns quantos visitantes em menor forma física que bufam por todo o lado para lé chegar. Lembro inevitavelmente os mosteiros de Meteora, também eles construídos no topo de picos rochosos com o objectivo de estar mais próximo de Deus. E aqui consegue-se sentir essa proximidade, ou pelo menos um afastamento da Terra. Numa pequena exposição na base do monte apercebo-me da relação entre este St Michele, e outros, também eles construídos no topo de montanhas, como a famosa ilha de St Michele na Normandia, um dos locais que mais gostava de visitar em França, mas que ainda não vai ser desta vez.
Visito a catedral, onde está a decorrer missa, e que não me consegue impressionar tanto como a máquina de fazer croché, de 1920 que se encontra a trabalhar numa loja ali perto. À saída da cidade vejo ainda uma igreja românica e antiga ponte medieval. O calor, cansaço, e falta de espírito de peregrino não me permitem apreciar tanto esta cidade como seria de esperar.
Espero por boleia debaixo dum calor abrasador. Não há sombras por perto. Hoje está a ser um dia difícil para apanhar boleias, e espero uns 20 minutos até que pára uma velhota. Conta-me que quando era mais nova também costumava viajar à boleia. A condução condiz com a idade: pára nas rotundas vazias, e quando vêm carros é que arranca.
Felizmente eu vou acompanhado do meu anjo da guarda, logo nada nos acontece! Deixa-me num cruzamento e arranca. Quando vou a ver, tinha-me esquecido da minha placa que dizia “Aubenas” no seu carro. Olho para trás e lá estava ela à minha espera para ma dar.
A partir daqui começa a melhor parte desta viagem. A minha placa diz Aubenas, mas só porque quero seguir nessa direcção. O carro que pára depois de 5 minutos vai para lá, mas eu pretendo sair antes. O rapaz é juíz e vai para Aubenas ter com a namorada. Espanta-se por eu conhecer o local onde quero sair, como se já lá estivesse estado antes, não ter mapa, nem querer consultar o dele. Caminho agora para as montanhas.
Às duas da tarde inicio a minha caminhada solitária pelas montanhas de Ardèche. Vou ter com uma amiga. Uma das melhores. Conheci-a em Marrocos em 2006 quando ia para a Guiné Bissau. Ela estava a caminho do Senegal. Escolheu agora viver aqui na paz das montanhas de Ardèche onde nasceu o seu filho faz agora 6 meses. Quando a avisei da minha visita ela deu-me indicações para ir até Aubenas e depois telefonar-lhe que me iria buscar de carro. Mas eu quero fazer uma surpresa. Por isso pesquisei no Google Earth como poderia lá chegar por outro caminho, e a rota foi esta. Pelas montanhas. Uns 20 quilómetros. Por vezes penso que seria melhor ter tomado o caminho mais fácil e ter seguido para Aubenas. Penso que ainda vou ter de acabar por desistir e telefonar-lhe, por isso tento memorizar todos os pontos de referencia para poder identificar o local onde estou. Passam poucos carros, talvez um a cada 15 minutos, e só depois de uma hora é que há um que pára. O casal de jovens olha para mim com cara de espanto. Não sabem onde fica Laboule, mas levam-me por uns quilómetros na direcção que eu pretendo. Desejam-me toda a sorte do mundo, como seu eu estivesse a empreender uma aventura sobre humana. Paramos junto a um restaurante e vou lá para comprar uma garrafa de água. Atenciosamente, a rapariga enche-me uma garrafa de água da máquina fresca e oferece-ma.
Sigo a minha caminhada até que chego a um cruzamento. Está lá um carro parado a consultar um mapa. Não querendo arriscar tanto, peço-lhe para dar uma olhada. O mapa é pouco detalhado e sigo pela estrada que penso ser a correcta, continuando a fazer sinal a todos os carros que passam na esperança de arranjar uma boleia. Depois de passar por uns velhotes nudistas a tomarem banho no rio lá há um carro com dois jovens que pára. “Ne cest pas bonne route ici.” Não era bem isto que eu queria ouvir neste momento. Estou do outro lado da montanha. Tenho três hipóteses: voltar atrás (uma das coisas que mais detesto fazer), continuar a descer e ir até Aubenas por este caminho (o que seria uma derrota para mim), ou, ir até à estância de sky ali perto e depois ir a pé. “Mas vais-te perder, porque o caminho não é fácil” avisam-me eles. Ainda assim decido arriscar.
Eles fazem um desvio, levam-me até lá e dão-me um mapa e todas as indicações: “Segues por aquele caminho que vai contornar a montanha. Depois hás-de encontrar uns pastores com ovelhas, aos quais terás de perguntar qual o caminho certo para Valos e Laboule, pois há vários trilhos a descer para o outro lado, mas apenas um leva lá. Se tudo correr bem consegues chegar antes do anoitecer. Tout la chance du monde, mon ami!” Desta vez sim, sinto que me estou a meter numa grande aventura.
Reconheço nestas alturas a existência duma força superior, a que uns chamam Sorte, outros Karma, outros Destino. Eu não me importo de lhe chamar Deus. Chame-se como se chamar, hoje há algo que me guia nestas montanhas e parece andar à minha frente a marcar o caminho que devo seguir, e a colocar as pessoas certas nele. Os primeiros quilómetros fazem-se pelo meio da floresta, até que por fim começo a entrar num descampado no planalto. A erva castanha que cobre o chão faz antever a presença dos pastores. Por fim começam a revelar-se, primeiro as ovelhas, depois os cães e por fim os pastores! A sua idade ainda jovem e os chapéus de feltro que usam levam-me logo a ver que certamente até habitam em Valos. Dão-me as indicações o melhor que podem para o meu pouco francês. Devo caminhar à esquerda e depois cortar à direita no segundo poste de madeira.
A paisagem aqui é do outro mundo. Absoluta paz, num horizonte de montanhas azuis a perder de vista. Fico agradecido à Silvia por ter escolhido este local para viver. Se não fosse ela provavelmente nunca aqui viria, e depois um dia lá de cima ia olhar para a terra e pensar como tinha sido mau não ter vindo aqui. Sigo o trilho pedonal e ao segundo poste de marcação começo a descida. Estou radiante por ver aqui uma indicação para Laboule. Seguem-se umas duas horas sempre a descer. O caminho está bem marcado e aberto, pois é usado pelos pastores para a movimentação do gado. Depois de cruzar 3 ribeiros, a vegetação rasteira dá lugar às árvores e começam aqui e ali a surgir aldeias.
Por fim eis que o caminho entra numa povoação. É Laboule. Estou portanto perto. Peço umas indicações e faço os restantes dois quilómetros por estrada. Depois de duvidar nas primeiras horas do caminho, vejo agora o meu sonho a concretizar-se: vou conseguir fazer a surpresa. Logo que entro na aldeia pergunto a uma senhora que está à varanda onde vive a Silvia, a portuguesa. “Ultima casa à esquerda”. Perfeito. Quando chego reconheço logo o companheiro e o filho, e mais alguns residentes que ja tinha visto em fotos. Ela não fica completamente surpreendida com a minha surpresa. Já estava à espera que eu fizesse algo assim. Depois de por-mos a conversa em dia é hora de jantar, descansar e agradecer pelo dia de hoje. Estou em casa.
Às vezes dizem-me: “Há pessoas com sorte!” e eu respondo: “Não, a sorte ou o azar só depende nas nossas opções.” Mas hoje sou obrigado a reconhecer: “Sim, há pessoas com sorte. E eu sou uma delas!”
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Veja também estas páginas:
- 19-08-2009 Carcassonne, Canal du Midi, Albi, Millau, Mende
- Fotografias das Montanhas de Ardèche, França; Agosto 2009
- Fotografias de Mende, França; Agosto 2009
- Fotografias de Vallon-Pont-d’Arc e Saint-Martin-d’Ardèche; Agosto 2009
- 26-08-2009 Avignon, Pont du Gard, Arles
- 27-08-2009 Arles, Les Baux, St. Remy, Cavaillon
- 21, 22, 23-08-2009 Valos











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September 9th, 2009 at 11:57 pm
Será que conseguias ir à boleia até paris e ao mont st michel?
Homem, és um verdadeiro viajante dos montes. Estou impressionada com as tuas tentativas, persistência e sentido de orientação.
Muy bene!!
October 29th, 2009 at 10:27 pm
[...] 20-08-2009 Mende, Le Puy, Ardèche [...]