18-08-2009 Foix, Mirepoix, Fanjeaux, Carcassonne
O Florian ofereceu-se para me levar ate a um ponto estratégico para apanhar boleia em direcção a Carcassone, o meu destino final deste dia. Vendo o bem que correram as boleias no dia anterior, decidi fazer este dia mais pausadamente, com algumas paragens pelo meio. Depois de 10 minutos parou uma senhora que me levou por alguns quilómetros. Ia a ouvir musica tipo religiosa, que se enquadrava perfeitamente naquela paisagem matinal, e que deixa antever a magia do dia que se aproxima. Parou para eu sair junto a um cruzamento. Assim que saio do carro, estico o dedo, e o primeiro carro que passa, pára. Incrível. Nem dá para acreditar. Uma rapariga toda gira que vai para o seu trabalho em Mirepoix. Pelo caminho o rádio toca gospel e ela canta. Fala um pouco de inglês. O gospel parece-me ser bastante popular aqui por França. Por vários locais do país encontrei cartazes para concertos Gospel em igrejas. Deixa-me na praça central, e começo por visitar a igreja que por dentro se revela impressionante. Apenas de uma enorme nave central, é escura, entrando a luz pelos seus belos mas pequenos vitrais. Parece saída dum filme de cavaleiros medievais. Descubro alguns quadros muito bons, entre outras obras. Cá fora, a praça central ladeada de casas típicas merece uma visita pausada. É momento de escrever alguns postais. Digo aos felizes destinatários que se isto continuar assim, fico por França. E é verdade que o sinto. Se os dias têm sido bons até agora, este está a ser perfeito.
Sigo novamente para a boleia à saída da povoação. Espero 20 minutos. Um recorde até agora. Pára um marroquino que até vai para Carcassone. Eu no entanto venho com a ideia de parar numa localidade a meio caminho, e quando me aproximo e a vejo, peço-lhe mesmo para parar. Fanjeaux é uma localidade pacata com pouco para visitar. Uma igreja que até está fechada, uma casa dum santo, e um mosteiro onde se deu um milagre e se é hoje recebido pelas simpáticas freiras que o habitam. Num centro cultural decorre uma exposição sobre os mosteiros da região. Pergunto aí se é possível visitar o mosteiro de Prouille que já tinha observado que ficava a caminho de Carcassone. Dizem-me que não, que está em obras de restauro. Fica a cerca de 1km, e como ali não encontro nenhum bom local para pedir boleia, decido caminhar até lá. Há algo que me atrai naquele mosteiro, e sinto o destino a empurrar-me para ele.
Na porta principal, um papel indica que está fechado, mas que a porta de entrada agora é pela lateral. Quando me aproximo aparece uma senhora a quem pergunto se posso visitar. Ela diz que sim e convida-me a entrar, e a a ir com ela, não entendo bem onde, pois o meu Frances é muito limitado. O templo está em obras, e depois de tirar algumas fotos começo a ouvir cantos vindos da porta onde ela foi. Vou ver. Lá dentro estão as irmãs a preparar a oração do meio dia. A senhora que encontrei antes convida-me a entrar. Estava um pouco receoso de o fazer por estar de calções, que não é o traje mais apropriado para aquele local, mas ela prepara logo um livro com os cânticos e convida-me a juntar a elas. Chegam mais algumas por outras portas, uma senta-se num instrumento tipo piano, mas de som ainda mais suave e começam. Há apenas mais dois homens na sala. Dois religiosos. Um negro, já com alguma idade, e um jovem monge, que parece ser até mais novo que eu, de cabelo rapado e hábito. A oração dura 20 minutos, e inclui cânticos, leituras e movimentos de adoração.
Quando termina saímos. Os religiosos por um lado, os outros por outro, sem grandes palavras, apenas uma troca de sorrisos de agradecimento por este momento mágico.
Estou agora iluminado para continuar esta viagem. Não me convidam para o almoço que me parece estarem a preparar cá fora, e por isso tenho de me contentar com o meu pão e chouriço. Passam muito poucos carros aqui, mas em 10 minutos há um pedreiro que pára e me dá boleia por alguns quilómetros. Assim que ele me deixa, pára imediatamente outro carro que me leva. Também não vai para a cidade, mas deixa-me supostamente perto. Decido ir a pé. Na minha cabeça pairam imagens de castelos medievais, que espero ver a aparecer no horizonte a qualquer momento. Mas não. Afinal não estou assim tão perto e o lado de que me aproximo também não é propicio a essas vistas épicas. Caminho sem água debaixo de um sol escaldante até encontrar um hipermercado para me abastecer antes da aproximação final à cidade muralhada.
Como já esperava a cidade, património da humanidade está repleta de turistas. Muitos turistas. Tantos que mal se consegue caminhar pelas ruelas estreitas. Paro logo no centro de informação turística para arranjar um mapa da cidade. Venho sem guias turísticos esta viagem. Com a quantidade de informação que é disponibilizada nos postos turísticos, os guias são desnecessários. Para além disso viajo à boleia, e não durmo em hotéis, logo essas informação também não me são necessárias.
As ruas estão ladeadas de lojas de artigos turísticos, que pouco lembram a época medieval. É penas que este comércio turístico descaracterize esta preciosidade, mas também é certo que seria difícil manter aqui uma feira medieval permanente.
Decido entrar no castelo quando vejo que os jovens europeus até 25 anos não pagam os 8€ da entrada. Embora o castelo seja como todos os castelos, vazio, vale a visita pelas vistas magníficas que se têm para as muralhas da cidade e pela história que se vai aprendendo acerca da reconstrução desta cidade.
Outro dos pontos de interesse no interior das muralhas é a catedral. Depois de ter entrado na sombriamente esplendorosa catedral de Mirepoix, esta, deixa-me desiludido. Embora com detalhes góticos muito belos por fora, por dentro vive-se o circo esperado num local tão turístico como este. Não tem alma. Lá dentro as pessoas buscam apenas um ar um pouco mais fresco num dia quente de Agosto, enquanto os locais até aqui aproveitam para fazer comércio. Verdadeiros vendilhões do templo.
Entro no ritmo. Tiro algumas fotos, descanso no fresco e saio.
Como tem sido costume nos últimos dias, começam a formar-se espessas nuvens do lado dos Pirenéus. Caminho um pouco para fora da cidade para tentar tirar uma foto ao longe, mas o local onde vou acabo por ficar em contra luz. Volto a entrar nas muralhas para as cruzar e sair do outro lado, onde a cidade é mais fotogénica.
Está a chegar ao fim o dia. Encontro-me com a couchsurfer que me vai receber, que embora em dia de aniversário não parece muito feliz. Pode ser apenas a sua maneira de ser ou algum problema de comunicação, mas parece que nunca mais é chegada a hora de ir dormir.
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3 Comments para “18-08-2009 Foix, Mirepoix, Fanjeaux, Carcassonne”
Viajar à boleia em França; Como e onde pedir; Porquê andar à boleia | Dobrar Fronteiras — 04/03/2010 @ 1:17 pm
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By a, 09/09/2009 @ 2:29 pm
Campos de girassóis!
O marroquinho.. O mosteiro, as gajas giras… Andaste cheio de sorte.
Eu cá, também gosto de mosteiros.. Apesar de não praticar a fé, gosto dos mosteiros não sei porquê..
Andaste armado em Cavaleiro das trevas a caminhar até ao castelo e sem água.. Às vezes eu também me meto por caminhos e atalhos sem estar bem prevenida.. Já apanhei algumas surpresas menos boas lol ou algumas situações de resistência mental e física.
“Estou agora iluminado para continuar esta viagem” –> lol, muito bom mesmo
Pois, esses patrimónios da humanidade costumam estar sempre a abarrotar pelas costuras.. Mas também andaste por sítios menos conhecidos
Eu infelizmente já não tenho essas borlas dos 25 anos porque fiz 26 este ano. Mas segundo o novo acordo, a partir do ano que vem somos jovens até aos 30.. O Cartão jovem vai ser prolongado.. Toca a passear lol
Mesmo assim, já fiz este ano várias artimanhas para entrar em museus e sites arqueológicos… Como eu sou piralha, passo por “pitinha”, toca a dizer que é estudante.. Perfeito. Às vezes nem é preciso dizer nada porque cobram o preço de estudante mal olham para mim lol
“verdadeiros vendilhões do templo.” –> outra grande dica lol
Eu cá gosto muito de igrejas pequenas e austeras.. É normal que essa tenha imensa gente, se é minimamente conhecida ou património. Mas tou a ver que entraste no ritmo lol
A comer pão com chouriço e a surfar nos colchões.. Aposto que gastaste uma ninharia…**
By David S R Santos, 09/09/2009 @ 7:40 pm
É verdade! A sorte esteve do meu lado nestes dias. Caminhos e atalhos foi no dia 20. Também já está online.
O que eu gosto mesmo é quando chego aos monumentos, mostro o cartão de estudante e me dizem que é grátis! Na Grécia era sempre assim, mas por aqui nem sempre.
Já me tinha esquecido de referir o meu orçamento record. Já vou falar dele na página do resumo da viagem.
bjinhos
Os teus comentários são sempre bem-vindos!
Samuel