O sol da manhã no terraço do hotel em que passei a noite não me deixou dormir até muito tarde. Acordei assim para iniciar a minha visita à cidade santa de Jerusalém, no dia em que para muitos portugueses era o inicio (ou fim) de mais uma rotineira quinzena no Allgarve. Comecei por o que estava mais perto, a porta de Jaffa ali mesmo junto à citadela.
Aquela hora da manhã a cidade ainda estava a acordar. Quase todas as lojas que preenchem as ruas da cidade velha estavam ainda fechadas e rapidamente pude chegar à igreja do Santo Sepulcro, o local mais sagrado para os cristãos uma vez que está construída sobre os locais onde segundo a tradição Jesus morreu, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia.
Lá dentro vivia-se ainda um ambiente algo místico. Apenas se encontravam algumas pessoas a fazer a limpeza e alguns madrugadores. Quando saí já começavam a chegar os primeiros grupos de peregrinos que começavam a encher a pequena praça em frente à igreja.
Percorri em sentido contrário as movimentadas ruas da tradicional via dolorosa até à porta dos Leões que dá para o monte das oliveiras. Na base deste existe um jardim onde se podem contemplar oliveiras milenares, testemunhas silenciosas dos acontecimentos que ali tiveram lugar dois mil anos antes. Neste mesmo jardim, uma igreja guarda no chão em frente ao altar a rocha onde Jesus terá chorado e rezado na noite antes de ser crucificado. Assim como os outros locais santos em Jerusalém e não só, por muito crente que eu seja, custa-me sempre a acreditar que tenham sido exactamente aqueles os locais, mas valem pelo símbolo e pela mensagem que transmitem.
A encosta do monte encontra-se quase completamente coberta pelo enorme cemitério Judeu. Foi construído neste local nas esperança de serem os primeiros a entrarem em Jerusalém no dia do julgamento final. Em contrapartida, os árabes taparam a porta do Ouro, que está virada para o monte, para os impedir de entrar! O típico jogo do gato e do rato que se joga em Jerusalém. Por exemplo ao anoitecer notei que quando começou a chamada para a oração islâmica do lado judeu começaram a lançar foguetes
Do topo do monte tem-se a clássica fotografia da cidade velha de Jerusalém com a muralha e a explanada do templo ao fundo, e as cúpulas douradas e cinzenta a saírem do meio do casario.
No topo do monte encontram-se algumas igrejas que celebram locais importantes da Bíblia, entre as quais o local da ascensão de Jesus, e o local onde terá ensinado o Pai Nosso. Não visitei porque era a subir, já lá tinha estado na minha outra visita.
O Monte das oliveiras está separado da cidade pelo vale do Cidrón, onde se encontram alguns túmulos de réis de Israel. No fim do vale chega-se às ruínas da cidade de David, os primeiros limites da cidade de Jerusalém. Pelo caminho passei por alguns jovens Israelitas, que vinham de praticar desporto, em calções e chuteiras e claro: a metralhadora.
A principal atracção da cidade de David é o Túnel de Ezequias, uma maravilhosa obra de engenharia, construída à muitos milhares de anos, e que transportava água para a cidade. São 500m de túnel, com menos de 1 metro de largura, e uma altura entre 1,5m e os 5 ou 6 metros, com agua corrente que chega a ter 70cm de altura. Demora cerca de 40 minutos a percorrer, e é expressamente proibido a claustrofóbicos. Logo à entrada vi algumas pessoas a saírem de lá com cara de pânico depois de terem percorrido 10 ou 20 metros. Lá dentro não há qualquer tipo de iluminação. É obrigatório levar uma lanterna e sandálias. Eu estava convencido que com tanta gente nunca ia andar às escuras e não levei lanterna pois a minha tinha ficado no hotel, e não me apeteceu pagar mais 2 ou 3 euros por uma. A escuridão no entanto era tanta que acabei por percorrer grande parte do percurso na mais absoluta escuridão. O túnel termina nas mal cheirosas piscinas de Siloé, antigo reservatório de água.
Depois do túnel voltei a subir à cidade, até ao Muro das lamentações onde me sentei por algum tempo a observar a movimentação dos Judeus antes de me entranhar novamente nas ruas do quarto muçulmano até à porta de Damasco. As ruas que rodeiam a porta de Damasco (chamada assim por dali partir a antiga estrada com destino a esta cidade) são as mais movimentadas da cidade, num constante fernezim de vendedores de tudo e mais alguma coisa entre as quais os melhores e mais baratos snaks árabes da cidade. Nos dias seguintes havia de voltar ali várias vezes para me alimentar.
A poucas dezenas de metros desta porta encontra-se provavelmente o local mais sossegado de toda a cidade: o Túmulo do Jardim. O local faz parte de todas as peregrinações de cristãos protestantes a Jerusalém, pois é ali que crêem ter-se passado os acontecimentos da morte e ressurreição e não na basílica dentro da cidade. Cheguei já tarde, quando as portas estavam a fechar e prometi voltar no outro dia àquele paraíso dentro de Jerusalém.
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