Para terminar mesmo com a pior ideia daquele parque de campismo onde me instalara 24 horas antes no deserto de Wadi Rum, às 7 da manhã ainda não havia pequenos almoços (supostamente incluídos no preço). Tive de sair assim de estômago vazio para apanhar o único autocarro do dia directo de Rum para Aqaba. Caso contrario teria de negociar boleias até à autoestrada e daí apanhar então um autocarro. Fui largado na paragem de Aqaba juntamente com dois viajantes franceses que pretendiam ir também para Israel, mas seguir logo para o Egipto. Apanhamos portanto um táxi juntos de Aqaba para a fronteira.
A saída da Jordânia é fácil. É necessário apenas comprar o selo de saída (5JD) e depois carimbar o passaporte. A terra de ninguém é de cerca de 100m de largura, e conduz a uma das fronteiras mais chatas do mundo. Logo à entrada está um “soldado” vestido com roupa absolutamente casual com uma arma ás cores (amarelo e preto). Na Jordânia ouvi verdadeiras histórias de terror, como gente que passou 6 horas na fronteira, etc. Gostavam de chamar Israel de “Disneyland”. O exagerado “colorido” daquela fronteira dava-lhes razão. Não foi necessário abrir a mochila; apenas a passaram pelo raio-x. Apesar da minha barba de quase 1 mês, não levantei suspeitas. A senhora do controlo dos passaportes fez-me algumas perguntas típicas, como: “Conhece algum árabe ou alguém em Israel?”, “O que pretende visitar?”, “Quanto tempo vai ficar?”, “Porque é que não tem reserva em nenhum hotel?”, etc, em Espanhol e em Inglês . Já os franceses, vi-os iniciarem este interrogatório, e depois desapareceram, para terem certamente uma revista mais rigorosa. Razão: no seu passaporte havia vistos da Síria, onde tinham estado dias antes.
À saída da fronteira, uma jovem militar informou-me que para chegar a Eilat ela poderia chamar um táxi. No entanto isso iria para além do meu orçamento, e por isso caminhei até à estrada principal que faz a ligação entre Eilat e o resto do país, que fica a menos de 1km. Foi a primeira vez que estive à boleia. Para dizer a verdade acho que sempre tive um bocado de receio e “vergonha” de o fazer, a juntar à imensa falta de paciência que tenho quando se trata de chegar a algum lado. Ainda assim gostei da experiência, e agora tenho pena de não ter ficado do outro lado da estrada a pedir boleia para Jerusalém. Israel é um óptimo país para se viajar desta forma, pois as estradas são muito ao estilo das nossas nacionais, sem portagens nem complicações. Depois de 5 minutos de espera, em que nenhum carro parou, apareceu um, vindo dum parque natural ali mesmo ao lado da fronteira que me levou até à cidade, que fica a uns 3km.
Já tinha estado em Eilat 10 anos antes, com os meus pais numa peregrinação pela Terra Santa. Nada tinha mudado, apenas eu e a forma como via as coisas. Devido ao meu admirável sentido de orientação sentia-me como em casa, ainda me lembrava perfeitamente do aeroporto, da praia, etc. Comi o resto do pão e queijo que me sobrava da Jordânia num jardim junto ao mar. Eilat é apelidada por Miami do Médio Oriente, e com razão. Desde os carros, às estradas, as mulheres e até mesmo os caixotes do lixo, tudo faz lembrar a América que vemos nas Marés Vivas. É o choque de culturas no seu máximo: a uns 50km dum dos mais radicais países Islâmicos (Arábia Saudita), as mulheres passeiam-se na rua de bikini.
Apanhei o autocarro na estação de Eilat com destino a Jerusalém, cruzando assim o quente deserto do Negev por uma estrada que já conhecia. Após umas 4 horas de viagem cheguei por fim à cidade santa de Jerusalém. Uma vez aí, apanhei um autocarro urbano até junto ao muro das lamentações onde fiz a minha entrada na cidade.
Embora seja uma das zonas mais tensas do mundo, respira-se um ambiente de absoluta paz naquele local, assim como em toda a cidade velha. Entrei na zona de oração com a mochila às costas, e troquei o meu chapéu de palha por um dos quipá de papel que estão disponíveis à entrada. Fui logo abordado por um judeu, daqueles mesmo autênticos, vestido de preto com o caracóis, que me perguntou de onde eu era, e falou comigo em espanhol. Deu-me as boas vindas a Israel, mesmo sendo cristão, recomendou-me que não desse esmola a nenhum dos pedintes que por lá andam, e que o meu “sombrero” era quanto bastava para lá entrar, não precisava de o trocar pela quipá.
Com tudo isto aproximava-se já o fim do dia, e atravessei toda a cidade até junto da porta de Jaffa, onde consegui ficar no hotel que era a minha prioridade: o Petra Hostel, um edifício centenário, onde já viveu Mark Twain (autor de Tom Sawyer), e que oferece uns soberbos colchões no terraço com um vista divinal sobre a cidade por uma pechincha.
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