A decisão já tinha sido tomada na noite anterior: Wadi Rum era demasiado espectacular para ficar só um dia. Para além disso, apenas um tour de jeep, embora permitisse ver uma enorme quantidade de maravilhas num só dia não dava para sentir a grandeza do deserto. Fiquei assim mais um dia.
Chegou assim o momento duma difícil despedida das minhas fantásticas companheiras de viagem. Fui de autocarro com o resto do grupo até ao parque de campismo de Beit Ali.
Como constatei que a comida que eles ali vendiam era paga a preço de outro, fui até uma pequena aldeia que se avistava a poucas centenas de metros em busca dum minimercado. A tarefa que podia parecer fácil revelou-se um pouco complicada. Os minimercados não têm qualquer tipo de anuncio ou publicidade, especialmente num local como este onde não vem ninguém de fora. Depois de vaguear um pouco pelas ruas, acabei a ser convidado por um senhor que estava no momento a regar a horta (sim, há hortas no meio do deserto) a entrar e tomar um chá. Acho que ele leu nos meus olhos o que procurava. Terminado o chá levou-me até um anexo do outro lado da casa onde a mulher e a filha tomavam conta duma pequena mercearia. Comprei mantimentos para aquele dia todo pelo preço que me custaria uma garrafa de água no parque de campismo.
Decidi então pôr-me a caminho. Bebi quase um litro de água antes de sair e levei litro e meio para o dia todo, mais a comida. A zona onde me decidi aventurar fica já fora da reserva de Wadi Rum e portanto não há qualquer indicação dos pontos de interesse para além dum mau mapa afixado no parque de campismo.Comecei por percorrer um vale de argila branca seca que começava ao lado do parque, e se dirigia às montanhas. As distancia no deserto enganam muito, e aquilo que parecia logo ali, transformou-se em quase 3km.
Se eu fosse supersticioso, ou não confiasse em mim, tinha voltado para trás aqui. Ia a caminhar sozinho, para o selvagem, com o meu chapéu de Alex Supertramp (aquele do filme “Into the Wild”) quando encontrei um autocarro abandonado. Foi o maior momento do dia. O autocarro estava ali no meio daquele mar de argila seca mas em muito bom estado.
Como não tinha qualquer mapa ia mesmo à aventura. Marquei como objectivo contornar uma das montanha que estava à minha frente. Nela encontrei algumas fendas na rocha, ainda húmidas onde era possível ouvir e ver muitos pássaros. O mais fantástico deste deserto são as cores: Areia cinzenta, vermelha e amarela, o verde das plantas e o castanho das montanhas.
A dada altura encontrei também uma estranha construção em ruínas ali no meio do nada. Ainda ponderei ser um alvo de teste para os aviões militares que estavam sempre a passar
Mas não. Quando regressei ao parque e vi o mapa que lá estava afixado pude concluir que eram os restos do cenário dum filme francês.
Pela hora em que me deu a fome, encontrei mais uma fenda na rocha, semelhante àquela onde havia almoçado no dia anterior e aí parei para comer e dormir a sesta. Estive lá umas duas horas e depois continuei.

Estava já a um pouco mais de meio do meu périplo e ia seguindo os rastos dos pneus que haviam na areia. Ao longe comecei a ver alguns jeeps parados junto a uma interessante formação de rocha em forma de cogumelo. Ao que parece é mais uma das atracções do deserto. Entretanto eles saíram de lá quando eu estava a chegar, olhando para mim com uma cara estranha e tirando umas fotos… porque seria? É assim tão estranho andar um tipo sozinho no deserto? Se calhar até é.
A partir daqui começou a levantar-se uma pequena tempestade de areia que me acompanhou até ao campo. Andei o dia todo preocupado com um dos grandes perigos do deserto: os escorpiões. Por fim, numa zona que estava cheia de ossadas de animais lá vi um, que mais assustado comigo do que eu com ele fugiu a toda a velocidade.
À chegada voltei a passar pelo mini-mercado para comprar mais alguma comida para o jantar: um dia de caminhada tinha-me aberto o apetite. Junto à aldeia e ao parque passa um comboio de transporte de minério numa ramificação da linha construída pelos otomanos.
Ao todo, pelo que pude ver depois no Google Earth fiz cerca de 12km neste dia.

Este artigo foi escrito por David Samuel
em 13 August 2008. Isso pode implicar que alguma coisa tenha mudado entretanto.